segunda-feira, 29 de outubro de 2007

As duas Estelas

        Estela Maria foi acordada naquela manhã com o toque do despertador do seu celular. Tomada ainda pelo sono, abriu seus lindos olhos verdes com bastante dificuldade. Sabia que tinha urgência em levantar da cama, pois um compromisso sério a esperava naquele início de dia. Um compromisso consigo mesma, pois a jovem loira iria naquela fria manhã enfrentar a difícil maratona do vestibular.

            Estela Aparecida foi despertada pelos raios do sol que penetravam subitamente em seu quarto, pela janela aberta por sua mãe que vinha acordá-la naquela mesma manhã friorenta. Era necessário que a jovem ganhasse logo as ruas, pois também tinha uma importante jornada no cursinho, para encarar naquele mesmíssimo dia, o vestibular.

            Estela Maria nascera no seio de uma tradicional e abastada família da classe média alta, enquanto que Estela Aparecida advinha de uma família dos morros que inchavam de gente pobre e que contrastava com o lado mais urbanizado e rico da cidade em que ambas moravam.

            Estela Aparecida desejava cursar Letras e especializar-se em Literatura Brasileira. A jovem e atraente mulata de cabelos negros encaracolados, olhos escuros e cintilantes como duas enormes jabuticabas, amava o universo da leitura e da escrita e queria disseminá-las lecionando com paixão para os mais jovens.

            Estela Maria queria cursar medicina especializando-se em Pediatria. Mesmo sendo burguesa tinha os olhos voltados para o povo e não pensava em se especializar em Pediatria com a intenção de abrir consultório particular, ganhar muito dinheiro e ficar mais rica. Tinha, por idealismo, o desejo de clinicar auxiliando as crianças de famílias humildes e carentes, as que não tinham recursos econômicos para pagar um bom médico.

            Estela Aparecida não negava sua origem afro-brasileira, como toda boa mulata que se preze, amava uma roda de samba. Era uma das sensações daquelas batucadas quando a rapaziada do morro onde morava se ajuntava empunhando o cavaquinho, o tamborim e o pandeiro assim como o violão, tocando a música brilhante do genial Cartola e de um fenômeno chamado Pixinguinha. Não tinha homem ou mulher daquelas rodas de samba, que não ficasse embevecido com o rebolado excitante e sensual da cativante estudante.

            Estela Maria dançando, a coisa era diferente, pois a moça gostava mesmo era de rock ‘n’ roll e música eletrônica. Costumava nos finais de semana, cair de cara nas baladas, frequentando as danceterias mais amadas e requisitadas pela juventude rica da cidade. Não havia um marmanjo sequer em uma só daquelas pistas de dança que não babasse ao ver aquela estonteante deusa loira dançar ungida com extrema sensualidade, parecendo estar cercada por uma incrível aura de beleza que dava a impressão de não pertencer a este nosso mundo.

            Estela Maria nas suas férias pretendia visitar Paris, a cidade luz, onde têm muitos amigos e mais uma vez passear na Champ de Mars e rever a belíssima Torre Eiffel. Seu guarda roupa era constituído por peças de grifes famosas e quem a conhecesse saberia que andar fora de moda era um lapso que nem passava por sua cabeça cometer.

            Estela Aparecida não se cobria com grifes, no entanto com uma criatividade imensa e com um bom gosto inquestionável, usava roupas simples e procurava vestir-se de um modo em que sua marca personalíssima ficasse impressa no espírito de quem desfrutava do seu convívio. Por sua vez, pretendia, em suas férias, ir ao Rio de Janeiro e se possível um dia desfilar na escola de samba do seu coração, a Portela.

            Estela Maria há alguns meses antes, estava mergulhada em um doloroso pranto, isso porque um primo seu havia morrido, pois fora vitimado por uma overdose de cocaína e a dor da perda fazia seu coração humano sangrar de uma forma que nunca antes a jovem sentira.

            Estela Aparecida, meses antes também, fora fotografada sentada na rua, segurando em seus braços o corpo ensanguentado do seu melhor amigo. O infeliz rapaz havia matado por ciúmes sua namorada para logo após suicidar-se com um tiro na cabeça. A foto correu o mundo e nela um grupo de curiosos cercava Estela que tinha a cabeça do rapaz junto ao seu seio, presenciando com estupefação todo aquele sofrimento que parecia grande demais para uma jovem como aquela suportar.

            Estela Maria costumava todos os dias ir se exercitar na pista de corrida de um clube frequentado por gente milionária, um lugar de onde seu pai era sócio há décadas. Já Estela Aparecida quando corria, era para fugir das balas perdidas que eram disparadas em tiroteios entre a polícia e bandidos no morro em que morava.

            As duas Estelas, eram na verdade um par de estrelas que no íntimo de suas almas femininas, ansiavam brilhar no mundo, afinal eram duas mulheres do século XXI e de forma alguma tinham vindo a passeio para ele, não, muito ao contrário, e tão certo como dois e dois são quatro, iriam mostrar tal realidade para todos que as cercassem.

            Depois de algum tempo, as duas Estelas concluíram suas respectivas faculdades, e se lançaram com determinação e muita coragem no mercado de trabalho. Além de dar aula de Literatura em uma importante faculdade, Estela Aparecida criou uma ONG que ajudava a jovens do morro em que nasceu e foi criada, a ingressar e conseguir bolsas de estudos em faculdades e Universidades muito bem conceituadas em todo país.

            Estela Maria de sua parte, na clínica particular que abriu em um bairro nobre da cidade, fez parte de um programa de governo que visava levar atendimento médico de qualidade a crianças das periferias e bairros mais carentes e populosos da cidade.

            As duas moças se casaram, cada uma achando para si a outra metade da laranja, ou melhor, dizendo, das suas almas de mulheres extremamente românticas e apaixonadas e em um belo dia as duas Estelas se conheceram e isso aconteceu em Paris, isso porque ambas receberam em um evento na capital francesa, um importante prêmio por bons serviços prestados a sua nação, cada uma em sua área.

            Estela Maria se identificou com Estela Aparecida e vice-versa. Apesar da origem social muito diferente, foram duas mulheres de fibra. Quando atracaram no porto desse planeta chamado terra no dia em que nasceram, o fizeram para serem duas reluzentes estrelas a brilhar no firmamento da esperança de suas famílias, amigos e pessoas que foram beneficiadas por seus belíssimos trabalhos de ajuda ao próximo. A partir daquele encontro construiu-se uma inquebrantável e poderosa amizade entre as duas. Uma amizade que perdurou até o final de suas vidas.

 - ELTON SIPIÃO O ANJO DAS LETRAS

Leitura crítica e revisão textual: Edna Lopes.

Nenhum comentário: