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O anjo das asas partidas

sábado, 3 de novembro de 2007.
        Hoje um Serafim belíssimo e de face tristonha se aproximou de mim e fez lembrar-me de ti.
Recordou-me do anjo de asas partidas que um dia tu foste, da tua inocência e candura, como de tudo aquilo que carregavas em tua alma e que me fizeram nesta vida amar-te de forma imensa.

       Por que neste mundo as pessoas boas têm de partir tão cedo, deixando em seu lugar a saudade de todo bem que nos fizeram?

       Aquela ultima vez que te contemplei com esses meus olhos que tanto sentem saudades da imagem de tua feição tão querida, jamais sairá da minha lembrança. O que assisti naquela ultima vez que estive em tua presença foi dolorosissimo para mim. Pois como esquecer minha pequena menina da tua face inocente marcada por uma expressão do mais profundo sofrimento e de uma dor inconcebível?

       Hoje teu pobre tio entregou-se a melancolia por causa dessas memórias de imagens tão amargas, ele tenta escrever alguma coisa que valha a pena no branco do papel, no entanto a inspiração poética insiste em não lhe visitar o espírito. Tudo parece somente assemelhar-se com um céu atormentado por nuvens que trazem em si a cor do chumbo, os raios do pranto e os trovões que anunciam a chegada da morte.

        Nunca entenderei porque resolvestes ir embora tão cedo, batendo as tuas asas branquíssimas de anjo de luz, indo, portanto fixar a tua morada tão longe de onde a minha fica.

        Eu, o teu tio, agora sinto vontade de chorar. Ah, minha pequenina como neste instante desejaria que estivesses aqui comigo, para que assim pudesses sentir toda a força do meu amor por ti.

        Contudo, não consigo resistir e caio em prantos em cima desta folha de papel onde em sua superfície lisa e branca eu tento escrever em tua homenagem uma prosa poética, oh, meu anjinho amadíssimo e venerável.

         As vezes chego a imaginar que caístes no seio de nossa família porque na verdade era um anjo do céu que ao quebrar as tuas asas em uma de tuas andanças, resolveste escolher justo o nosso lar para que pudéssemos te ajudar a curar as tuas feridas. Então quando te achastes com tuas asas sanadas, decidistes retornar a tua verdadeira casa, junto ao seio divino dos espíritos bem aventurados que se lhe assemelham.

          Apenas não imaginastes minha delicada flor do campo que, com tua partida repentina irias partir mortalmente o coração de nós teus entes queridos com o machado da mais abismável dor.

          Tenho consciência que tivestes dias sombrios ao sentir muitas dores em teu leito hospitalar, também sei que a provação foste tua inseparável companheira de quarto. Teu coraçãozinho seráfico te dizias a todo momento que tu não pertencias a este mundo, e sim há um outro, onde nunca mais sentirias dor e mazela alguma te atormentaria um dia sequer que fosse.

        Este teu mesmo coração de anjo-menina não cansavas te avisar-te que dia menos dia deverias libertar-se daquele exílio de sofrimento e desta forma terias que retornar ao mundo de alegria e luz onde tu foste verdadeiramente concebida.

       Compreendo que por amor a nossa família, tu ainda lutaste muito para não partir logo, destes um exemplo do que é ser uma guerreira, pois guerreastes nobremente pela tua vida, mesmo ceifada pelas mãos da morte, não te consigo conceber vencida por suas mãos.

      Até o fim minha admirável menina fostes mestra de todos nós que te acompanhamos em teu sofrimento, tu foste mestra nesta lição que nos concedestes, esta lição que se chama vida.

      De ti, sobretudo aprendi que o importante não é o quanto se vive em cima desta terra em que nascemos, mas como se vive.

      Em uma noite me aparecestes dentro de uma visão, tinhas um belo sorriso nos lábios, estavas vestida com uma túnica que era mais alva que a neve e em torno de teu corpo infantil refulgia uma luz muito clara, tu te assemelhava há um pequeno sol.

      Começastes então por dizer, que eu não deveria continuar a entregar-me a tristeza por causa de tua prematura partida, que a tua passagem por este mundo e pela minha vida e a de toda nossa família tinha que ser da forma que foi, súbita, semelhante à visita de um raio quando risca os céus do firmamento.

      Emocionado comecei a chorar, meneando a tua cabecinha, insististes em me dizer que eu deveria cessar com todo o meu pranto, que na verdade já que a amava tanto como eu demonstrava, deveria me sentir feliz, porque como com meus próprios olhos eu estava constatando, tu estavas definitivamente livre de toda doença, angustia e dor.

      Gentilmente com as costas das tuas mãos enxugastes as minhas lagrimas e continuastes a dizer-me que, de onde estavas tinha uma grande vantagem, a de que poderias cuidar melhor de toda a nossa família protegendo-a de toda a espécie de mal. Mandou-me ainda dizer aos teus pais que não sofressem muito por tua causa, porque tu estava mandando para ficar junto deles, um outro anjo de alma terna para que ficasse em teu lugar.

      Por fim me destes um beijo na testa, como tuas ultimas palavras me dissestes para viver a vida de forma plena e sem medo e que ao fim de tudo, eu e tu e toda a nossa família, nos reencontraríamos novamente, sendo que desta feita não nos separaríamos nunca mais em toda a nossa existência.

      Então me dando um ultimo sorriso desaparecestes diante os meus olhos tão magicamente como houvestes aparecido.

      Vem Ashley brincar com o teu tio, abrindo para ele um caminho feito só de luz, vem sorrir dizendo que para sempre neste caminho luminoso ele poderá trilhar tendo a tua doce companhia ao seu lado.

      Vem ensinar ao teu tio a suportar a dor de tua partida, que como a ponta de uma lança o transpassa dolorosamente. Leva-o ao teu jardim de amor primaveril, onde nele tu plantaste mil rosas das mais perfumadas, orquídeas de um colorido surreal e lírios translúcidos que refletem a essência de tua inquestionável pureza.

      Lá no interior deste teu jardim eu te contarei estórias onde as fadas de bom coração amam as criancinhas. Falarei também de piratas que caçam tesouros, buscam aventuras e não sabem do significado da palavra medo. Para encerrar não me esquecerei de te falar das sereias que com uma canção de uma melodia hipnotizante, tentam seduzir os corações de marinheiros desavisados levando suas embarcações ao fundo do mar.

     O tio se sente melhor agora, mesmo em meio a muitas lágrimas conseguiu terminar essa prosa-poética para ti, onde nela ele pôde contar um pouquinho de tua linda e curta história de vida.

     Tenho a absoluta certeza que estás em um lugar muito bom de viver, apenas quero que saibas que nunca e em nenhum momento me esquecerei de ti, ah, meu amado anjo das asas partidas.

- ELTON SIPIÃO O ANJO DAS LETRAS

“Crianças mortas -
mundo que escreve mal
por linhas tortas”.
(Carlos Seabra.)

A Ashley Heloíse com muito amor pela sua breve mais iluminadora passagem por esse mundo e pelas nossas vidas.

(Elton Sipião o Anjo das Letras. - Sábado 3 de novembro de 2007.)

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