segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O menino que amava escrever

         Havia um menino que era diferente de todos os outros meninos do vilarejo onde vivia. Ele era diferente até mesmo dos seus dois irmãos com os quais morava juntamente com seus pais. Este menino e a sua família residiam em uma casa feita de madeira e protegida pelo verniz.

           O Menino não tinha prazer em brincar com seus irmãos, primos e amiguinhos de infância, pois o que ele gostava mesmo de fazer era se entreter consigo mesmo ou melhor, com os “amiguinhos” imaginários que criava com a força da criatividade de sua mente.

           Vivia assistindo imagens e cenas que apareciam em uma caixa de madeira mágica e tudo que contemplava no interior dela era em preto e branco. Nela via heróis e heroínas assim como criaturas e seres fantásticos, essa caixa mágica de madeira o transportava para um mundo só seu, um que lhe era encantado e que somente existia dentro de sua imaginação fértil e sonhadora.

            Muitas vezes quando era pego brincando sozinho, falando com pessoas e criaturas que somente ele podia ver e escutar, o menino era repreendido pelos seus pais e irmãos que colocaram um nome naquela sua mania de brincar sozinho, chamavam aquele seu comportamento de “maluquice”.

            Mas aquele menino não era maluco de forma alguma, apenas era diferente das demais crianças de sua idade e do lugar em que estava crescendo. Outra coisa da qual tinha costume era de andar para cima e para baixo com um caderno e caneta em mãos, vivia escrevendo, criando estórias fictícias, dando vida a personagens que ele criava com aquela sua mesma mente criativa que o fazia teletransportar-se para um universo de mil possibilidades, onde era possível escalar paredes como o “Homem Aranha”, viajar ao “Reino das Águas Claras” com Pedrinho, Narizinho e a Emília, desvendar mistérios ao lado de “Sherlock Holmes” e seu auxiliar o doutor “Watson” ou ainda aventurar-se na floresta de Sherwood ajudando “Robin Hood” a fazer os soldados do “Rei John” de bobos.

           Os pais se preocupavam com o jeito diferente do seu menino, tinham realmente medo que ele tivesse nascido com algum problema em dentro da sua cabeça. Mas o tempo que é esposo soberano da verdade mostrou-lhes com o seu passar, que não tinham nada com que se preocupar, afinal o que o menino deles realmente levava consigo não era um problema ou uma doença, apenas ele era dono de uma alma criativa e inquieta e que tinha enorme necessidade de exteriorizar o que carregava dentro de si mesma.

           O menino com o passar dos anos parou com aquela sua mania de brincar sozinho, mas o hábito de escrever levou consigo para o resto de sua vida. O menino descobriu que escrevendo poderia brincar de Deus, fazendo a tempestade parar derepente colocando um ponto final na frase que houvera criado. Percebeu que com a sua escrita poderia fazer o milagre do sol de se encontrar com a lua, e ainda conseguir com que as estrelas baixassem a terra sem queimá-la e sem destruí-la.

           Aquele menino escreve até hoje, só que agora vive no corpo de um homem já feito, e por não ter perdido a paixão e o hábito de escrever operando seus pequenos e grandes “milagres, ele sabe que por causa disso muita gente o amará antes e ainda depois que os seus dias aqui na terra se findarem.

- ELTON SIPIÃO O ANJO DAS LETRAS

Essa prosa-poética é baseada no texto “O menino que carregava água na peneira” da autoria de Manoel de Barros, resolvi escrevê-la por eu ter me identificado com o poema criado por esse genial poeta cuiabano. Quando li pela primeira vez “O menino que carregava água na peneira” me pareceu ter lido a história não só da minha infância, mais de toda a minha existência.

(Elton Sipião o Anjo das Letras.)          

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