segunda-feira, 19 de novembro de 2007

O menino que carregava água na peneira

 Anjo, ao reler este poema lembrei de vc. De alguma maneira achei que parece contigo. Bjsssssssssss..."O menino que carregava água na peneira ."
(Trecho de um e-mail enviado pela escritora Edna Lopes à mim).

Elton Sipião o Anjo das Letras.
        
       Tenho um livro sobre águas e meninos. Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.

       A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos. A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água,o mesmo que criar peixes no bolso.

       O menino era ligado em despropósitos. Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos. A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio. Falava que os vazios são maiores e até infinitos.

       Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito porque gostava de carregar água na peneira, descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira. No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.

       O menino aprendeu a usar as palavras. Viu que podia fazer peraltagens com as palavras. E começou a fazer peraltagens. Foi capaz de interromper o voo de um pássaro botando ponto final na frase. Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela. O menino fazia prodígios. Até fez uma pedra dar flor!

       A mãe reparava o menino com ternura. A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta. Você vai carregar água na peneira a vida toda. Você vai encher os vazios com as suas peraltagens e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos.

MANOEL DE BARROS.

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