quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Amor bandido. O cumprimento da profecia. - II e ultima parte.

        Agenor gentilmente agradece a preocupação e o aviso dado pela menina, no entanto ele lhe responde:- Eu não vou fugir do lugar em que nasci e cresci como se fosse um bandido sendo que na verdade nada fiz de errado. Se eu fizer o que todos estão me pedindo ainda que eu saiba que o fazem visando apenas o meu bem, sinceramente vou me sentir um covarde. Lembro-me claramente que quando os traficantes ainda dominavam os perímetros desse morro eu nunca abaixei minha cabeça para eles, porque faria isso agora com o João Roberto que é muito menos perigoso do que estes eram?

        Meneando a cabeça ao mesmo tempo em que expressa em seu rosto uma fisionomia marcada pela decepção e desapontamento, aquela profetisa adolescente responde a Agenor:- Ah Agenor tu não sabes como esta tua resposta traz ao meu coração uma profunda dor, como se uma adaga que tivesse uma lamina afiadíssima e pontuda fosse cravada em seu âmago. Por subestimares a maldade do homem que deseja te matar, pagarás um alto preço por isso, o preço valioso de tua vida. - e tendo lágrimas que lhe rolam abundantes pelas suas faces a jovem menina por fim concluí:- Se está é a tua resposta final, então adeus meu doce e querido Agenor, está é a ultima vez que nos falaremos com toda a certeza. Da próxima vez que vieres a essa capela tu não chegarás a ela andando com teus próprios pés, mas sim carregado pelas mãos daqueles que te amam, e eles farão isso tendo as suas almas em estado de pranto, porque te trarão aqui dentro de um caixão para rezarem por ti em tua missa de corpo presente.

        Ao acabar de proferir tais palavras carregadas de um terrível aviso profético, a jovem adolescente se despede cordialmente tanto de Agenor como de Maria Ângela que a vêem descer os degraus da escada da capela, e ganhar a pequena rua de terra batida afastando-se dali.

        Maria Ângela estupefata enquanto acompanha com seus olhos a menina pouco a pouco sumir no final da rua, tem o seu coração a bater fortemente impulsionado por sentimentos de apreensão e preocupação causados pelo conteúdo das palavras ditas por aquela misteriosa e intrigante menina.

        Durante todo o trajeto de volta para casa, Maria Ângela usa todos os argumentos que tem consigo com o intuito de convencer a Agenor para que ambos possam ouvir os avisos que lhe foram dados por seus amigos e familiares, e por fim por aquela menina que os dois não conheciam, e que parecia sem duvida alguma saber da ameaça que representava João Roberto, ameaça essa que pairava sobre suas cabeças como um machado de lamina afiada e empunhado por um horrível algoz.

        No entanto Maria Ângela esgotou em vão todos os argumentos que tinha, Agenor estava irredutível em sua decisão, realmente ele iria ficar e enfrentar se fosse preciso a João Roberto e suas ameaças.

        A mulata percebendo a resoluta e indissolúvel decisão de seu namorado resolvera encerrar aquele assunto entregando a segurança de Agenor nas mãos de Deus, pois ela entendia que não podia fazer mais nada por ele a não ser entregá-lo aos cuidados do divino.

        Passadas algumas poucas semanas desde o acontecimento da profecia feita por aquela menina nas escadarias da capela, os moradores do morro estavam em polvorosa, afinal a mais famosa roda de samba feita naquela comunidade estava para acontecer no fim de semana que rápido se aproximava.

        Era a roda de samba da Dona Dedé, uma sexagenária senhora que era descente de escravos, amante do bom samba e da boa culinária afro-brasileira, ela tinha tornado aquela reunião mensal de sambistas e gente conhecida em um verdadeiro evento naquele morro.

        Chegado a noite da roda de samba, Maria Ângela juntamente com seus avós e Agenor compareceram para prestigiar o evento de Dona Dedé que era uma amiga deles há um bom tempo.

        Em muito pouco tempo o imenso terreiro da casa de Dona Dedé estava cheio dos seus convivas. As mesas estavam abarrotadas de gente que queriam curtir o samba de raiz tocado por músicos da comunidade que manipulavam seus instrumentos com refinada maestria.

        A cerveja espumava bem gelada nos copos dos seus apreciadores, os pratos típicos de Dona Dedé que era uma cozinheira de mão cheia faziam o prazer daqueles que os experimentavam, as pessoas que não estavam comendo ou bebendo era porque naquele momento entregavam-se ao frenesi do samba dançando de forma excitada, e Maria Ângela e Agenor eram um deles.

        Maria Ângela sambando de uma forma sensualíssima era um verdadeiro colírio para os olhos de quem a observava. Afinal era praticamente impossível mover o olhar para longe dela, daquela mulata que tinha o seu suor escorrendo por seu pescoço, seu colo exuberante que se fazia visível pelo decote do seu lindo vestido curto, pelas suas coxas grossas, e bem delineado em seu desenho anatômico. Maria Ângela parecia a encarnação pura de Chica da Silva em seus dias áureos.

        Derepente eis que irrompendo do meio daqueles que dançavam aparece João Roberto, suas feições eram de um homem totalmente transtornado, seu olhar refletia um ódio puríssimo e que causava medo a quem o contemplasse, a sua respiração era rápida, ele parecia ofegante, como querendo puxar a maior quantidade possível de ar para dentro dos seus pulmões.

        Caminhando por entre aquela turba que sambava alegremente, ele se aproxima de um casal em especial, João Roberto cessa com seu caminhar estacando bem na frente de Maria Ângela e Agenor.

        Maria Ângela e Agenor surpreendidos pelo súbito aparecimento de João Roberto na sua frente, assustados param derepente de sambar.

         De forma instintiva como o macho da espécie humana sempre faz para proteger a sua fêmea em uma situação de perigo como aquela, Agenor se coloca a frente de Maria Ângela que encoberta pelas suas largas costas, não enxerga quando João Roberto saca da sua cintura um revolver calibre 38 de cano longo.

- Eu te avisei maldito de todas as formas que pude para que tu te mandasses para bem longe daqui, deixando minha nega livre para mim. Mas tu és teimoso, não acreditaste em minhas ameaças, achaste realmente que eu não falava a sério?Pois então toma seu filho de um cão sem dono!

        Ao acabar de dizer essas palavras enquanto apontava a sua arma na direção de Agenor, sem pestanejar, João Roberto efetua três tiros na direção da cabeça do jovem funcionário público.

        Sem chance de alguma reação sequer, o pobre Agenor ao ser assim tão covardemente alvejado, cai pesadamente ao chão sobre os gritos e olhares apreensivos e estupefatos de toda aquela gente ali reunida que presenciou aquela trágica cena.

        Maria Ângela com seus olhos esbugalhados expressando através deles um olhar de pura perplexidade, tem a sua voz presa por alguns instantes até então poder soltá-la através de um grito que misturava sentimentos de imenso terror com a mais profunda das dores.

        Ela abaixa-se para tomar Agenor em seus braços que sangra profusamente pela sua testa perfurada grotescamente pelos três projéteis que a atingiram, o jovem mulato tem seus olhos abertos, parecendo expressar surpresa misturada a perplexidade.

        Agenor jazia sangrando e totalmente sem vida nos braços de sua amada Maria Ângela.

        João Roberto por uns instantes olha para aquela cena no mínimo assustadora, então de súbito, ficando de costas para Maria Ângela e Agenor, ele se volta à multidão de pessoas que o contemplam com temeridade e quase sem acreditar no que ele acabara de fazer, olhando em suas faces o ex-policial levanta a sua arma para cima e grita a quem pudesse ouvi-lo: - Eu o avisei, por meio de todos que estão aqui eu o tinha avisado, espalhei para quem quisesse ouvir que o mataria se ele não fosse embora da comunidade deixando Maria Ângela em paz. Isso vos sirva de lição, ninguém pode subestimar um homem como eu e continuar vivendo!

        Mal João Roberto termina de proferir essas palavras eis que ele estaca de súbito, seu olhar derepente fica estranho até mesmo de compreender a sua expressão.

        O assassino de Agenor lentamente abaixa a mão que empunha a arma que há pouco fora disparada por ele, deixando-a cair ao chão, então olhando para o seu peito o facínora percebe surpreso a ponta de uma lamina que o perfura transpassando totalmente o seu coração.

        Lentamente João Roberto vai se abaixando até o ponto de seus joelhos tocarem o chão, quando estes se firmam no solo de terra batida do terreiro de Dona Dedé, ele tomba para frente ficando deitado de bruços sobre ele.

        Quando João Roberto caiu, é que foi possível para quem assiste mais aquela inusitada cena naquela noite tétrica, enxergar a Maria Ângela empunhando uma grande peixeira que acabara de enterrar até o seu cabo e depois retirar das costas de João Roberto.

        O ex-policial estando esfaqueado, ainda consegue se virar de barriga para cima e contemplar Maria Ângela lhe apontando a peixeira que segura em uma de suas mãos, lhe dizer:- Se tu pensavas que ias matar o meu amado e iria ficar por isso mesmo se enganou seu rato, jamais eu permitiria que andasses pela comunidade se gabando de ter lhe tirado a vida. Morra e vá para o inferno, tu nunca mais irá atazanar e destruir a vida de ninguém.

        Deitando muito sangue pela boca, João Roberto tenta pronunciar algumas palavras, entretanto ele é acometido por uma tosse que faz com que o liquido sanguíneo saia com mais profusão ainda, então de súbito sua cabeça pende de lado, seus olhos se fecham, e a morte o leva embora para sempre do mundo dos vivos.

        Soltando a peixeira no chão, Maria Ângela mais uma vez se aproxima do corpo sem vida de seu querido Agenor, ela agacha-se e o envolve novamente em um abraço choroso, seus avós e as pessoas da comunidade ali presentes a acercam com seus espíritos totalmente pesarosos por aquela terrível tragédia. Eles conseguem ouvir quando Maria Ângela acariciando o rosto de Agenor lhe diz: - Está vendo meu amor, tanto que lhe foi avisado, tu morreste por tua teimosia e por subestimares a impiedade de um assassino nato. Tu pagaste por este teus erros com tua vida, e me fizeste também pagar com a dor infinita de tua perda.

        Passados alguns anos daquele terrível ocorrido, Maria Ângela conheceu um bom rapaz com quem se casou e mais tarde teve com ele dois lindos filhos.

        Por toda a sua vida aquele homem a fez feliz, no entanto aquela linda mulata sempre guardou secretamente em seu coração de mulher, a memória e o amor do seu querido e saudoso Agenor.

- ELTON SIPIÃO O ANJO DAS LETRAS

                                                               Fim.


“De todos os perigos, o maior é subestimar o inimigo”.
(Pearl S. Buck.)

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