domingo, 10 de fevereiro de 2008

A menina que gosta de navegar no mar doce do versejar

        Encontrei em meu velho baú um livro antigo que falava de meninas com alma de poeta. Amei tal livro. Gostei principalmente da história de uma menina pobre do interior do nordeste brasileiro. Essa menina apesar de muito pequena era muito inquiridora, afinal queria saber de tudo aquilo que ao seu redor lhe chamava a atenção e despertava a sua curiosidade.

        A menina possuía uma avó que a amava muito e tinha com ela uma paciência infinita, tanto é que na medida do possível procurava responder as perguntas que lhe eram feitas por aquela sua neta.

        Uma vez apontando para uma estrela no céu, perguntou a sua avó se as estrelas possuíam nome, a boa anciã lhe respondeu que algumas tinham, enquanto que outras não, e amorosamente lhe pediu para não apontar, porque com isso poderia lhe crescer uma verruga na ponta do seu dedo. 

        A menina tinha bochechas rosadas e era dona de um sorriso franco e um olhar perscrutador que parecia desejar desvendar os mistérios que a cada dia dava a impressão de estarem se multiplicando em seu cotidiano.

        O interesse pelos livros logo veio, a menina muito sedenta de querer adquirir conhecimento, ainda muito cedo desejou aprender a entender o que aqueles desenhos estranhos, as letras que juntas formavam as palavras, significavam de verdade.

        Colocou em sua cabeça que tinha que frequentar a escola juntamente com suas irmãs, mas como a pouca idade não lhe permitia, tal coisa lhe foi impedida pelos mais velhos de se fazer. No entanto assim que suas irmãs chegavam do grupo escolar, nunca perdia a chance de perguntar-lhes como foi o aprendizado naqueles seus dias de aula.

         A menina não podendo ser alfabetizada por causa de sua ainda tenra idade, não se deu por vencida, e resolveu por si própria aprender a desvendar o que diziam aquelas letras que unidas, formavam palavras, e que ela chamara de desenhos esquisitos.

        Resolvera aprender a ler de qualquer maneira, ainda que fosse sozinha. Sendo deste modo, tudo que caísse em suas mãos infantes em termos de livros, ela procurava ler, devorar com os olhos. Sua avó achava graça ao mesmo tempo em que admirava o esforço pessoal de sua neta, e resolveu então lhe dar um presente, um livro, o almanaque do Coração de Jesus.

        O coração daquela pequenina menina alegrou-se enormemente, finalmente havia ganhado um livro que poderia dizer que era somente seu. E para premiar seu enorme esforço de aprender a ler a todo custo, eis que aconteceu que conseguiu ler a primeira palavra, desta maneira todos em sua casa em um belo dia, podiam ouvi-la repetir sem parar por um momento sequer, a primeira expressão escrita que aprendera a ler: A palavrinha leite.

        Daquele dia em diante a menina desembestou a ler, lia para seus pais, irmãos, tios, primos e para todas as visitas que chegavam à casa de sua família e ficavam pasmos, pois como uma menina tão pequenina aprendera a ler daquele modo tão fluente?

        Chegado o tempo certo a menina pôde realizar seu grande sonho, o de poder frequentar a escola como seus irmãos e irmãs mais velhos tinham feito antes dela. Na escola que estudara tinha uma pequena biblioteca, ali aquela garotinha pôde conhecer uma variedade maior de títulos literários que houvera conhecido até ali, e seu universo de idéias e possibilidades tornou-se infinito.

       Com o passar dos anos a menina foi crescendo e após ter concluído o ensino médio e fundamental entrou para a faculdade e assim que a terminou, cumpriu com a profecia de sua velha avó que dissera que quando ela se tornasse uma mulher adulta tornar-se-ia uma professora, e foi isso justamente que acabou ocorrendo em sua vida.

        Mesmo tendo se tornado uma pessoa adulta, aquele seu amor de menina pelo questionamento das coisas da alma humana e sua paixão abrasadora pelos livros nunca acabaram, e além de gostar muito de ler, descobriu-se escritora dos seus sentimentos, idéias e sensações de mulher. Assim sua poesia aflorou de sua pena autoral, aquela menina-mulher revelara-se a si mesma e ao mundo como poeta.

        Hoje ela mora na bela Maceió e é casada com um grande escritor de lá, com ele teve um filho, um belo e inteligente menino, e mesmo sendo educadora no colégio em que trabalha, não se cansa de professar seu amor incondicional pela leitura e escrita, e é por isso mesmo que até os dias atuais continua sendo “a menina que gosta de navegar no mar doce do versejar”.

- ELTON SIPIÃO O ANJO DAS LETRAS

Esta prosa poética é derivada do conto autobiográfico intitulado-"Uma lembrança muito especial", da talentosa Educadora, escritora e poeta alagoana - Edna Maria Lopes do Nascimento.Eis o link do referido texto que está publicado na Web: http://www.recantodasletras.com.br/contos/600437/

Edna Lopes é um bom protótipo de um escritor, nunca conheci uma pessoa que goste tanto ou mais de ler do que ela, e escritor que não lê é rabiscador e não escritor! Ela é uma das poucas pessoas da literatura que consegue lhe citar desde o americano/ britânico T.S.Eliot até o Manoel de Barros, nosso poeta de Cuiabá. Sei que ainda é aquela mesma menina do interior do nordeste apaixonada de forma irremediável pela leitura, sua companheira constante em anos de vida, e que à transformou na boa escritora que ela é hoje. Ler Edna Lopes é ir para vida, e parafraseando então o grande poeta Cazuza, "vamos à vida!".

Elton Sipião- O Anjo das Letras- 09/02/008.

A foto que ilustra o texto publicado acima, é da educadora e escritora Edna Lopes. 

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