segunda-feira, 1 de junho de 2009

DEUS SELVAGEM!- II PARTE- RIMBAUD ESTÁ DE PARTIDA.


***Meu espírito selvagem arde como fogo puro dentro do meu jovem corpo, quase que ele não consegue contê-lo dentro de si.
***As vozes dos anjos falam-me ao ouvido, recitam-me poesias visionárias, proibidas de serem declamadas neste mundo, que precisa renascer de suas próprias cinzas.
***Hoje vou fugir de casa para ver se me encontro lá fora, minha mãe abandonada, da qual fui cuspido de seu seio materno, sempre me esperará. Paris é o meu destino, ou seria ponto de partida para que eu ganhe o mundo?
***A pena e a tinta preta me acompanham, amantes fieis que me fazem cada vez mais promiscuo, pois não sou dado a apegar-me a um estilo, sendo adultero com aqueles que já existem, hei de criar uma nova forma de fazer poesia.
***Beijo tua boca lasciva nas noites parisienses, sentindo a maciez de tua barba e bigode a tocarem sedutoramente, meu pescoço de pele macia e branca. Tu és poeta maldito,simbolista e ridículo, e serás muito mais maldito por teres me amado, com um amor proibido.
***Agora o haxixe e o absinto nos acompanham feito dois amados amigos, desregramos nossos sentidos, e com isso veremos para além dos nossos horizontes mesquinhos, enxergaremos para além de nossa poesia cretina.
***Vou te contar um segredo, meu amante poeta francês, desde pequeno sinto a presença de um deus selvagem, querendo devorar-me vivo, senti já o ardor fétido de seu hálito várias vezes, uma vez experimentei sua mordida de dor extrema, no estupro covarde dos soldados bêbados.
***Hoje sou apedrejado nas esquinas por causa dos meus cabelos compridos e por minhas roupas rotas.
***Esta na hora de descansar minha pena autoral, e estancar a sangria da tinta que procede das veias do tinteiro, calar-me-ei de vez, silenciarei a voz clamante de minha poesia densa, iluminante e apaixonante.
***Já não quero mais nada contigo, fizestes-me sangrar em meu pulso ferindo-me mortalmente em minha alma adolescente. Por tua causa passei toda uma estação no inferno, adeus meu amor mais querido, adeus meu amor perdido, adeus meu amor proibido.
***Aden me espera como uma cidade dentro de um vulcão extinto, agora sou traficante de mim mesmo, negocio almas no mercado humano, distribuo café e armas a compradores africanos.
***Tenho uma amante etíope, ela é linda e fogosa como a África que todos os dias morre e renasce diante dos meus estupefatos olhos.
***Aquele deus selvagem, que me acompanha e quer devorar-me vivo desde pequeno, finalmente alcançou-me, ele é este tumor cancenigero que brota em meu joelho, devorou-me a perna quando estive de volta a Marselha.
***Sou agora redimido por esse deus, libertado das amarras da mortalidade humana.
***Serei imortal, pois viverei em cada espírito selvagem que andar na face da terra em todos os tempos, gritarei minha poesia simbolista e maldita por meio da garganta de cada rebelde que trouxer em si, uma alma que queima como puro fogo, e foge de um deus selvagem que ao persegui-lo quer lhe devorar vivo.

ELTON DAS NEVES O ANJO DAS LETRAS.
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Dedico esta prosa poética ao Principe dos Poetas, Arthur Rimbaud-(20 de outubro de 1854, Charleville - 10 de novembro de 1891, Marselha).
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"Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível.Fixava vertigens.Criei todas as festas, todos os triunfos, todos os dramas.Tentei inventar novas flores, novos astros, novas carnes, novos idiomas." Arthur Rimbaud.
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A imagem que ilustra o texto, é a pintura intitulada "A volta da mesa"-,obra da lavra do artista plástico Henri Fantin-Latour, 1872.
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Descrição dos personagens retratados na tela acima: Sentados em primeiro plano, da esquerda para a direita: Paul Verlaine, Arthur Rimbaud, Léon Valade, Ernest e Camille Hervilly de Pelletan; pé no fundo: Elzear Pierre, Jean Emile e Blémont Aicard.


Legião urbana - Tempo perdido

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