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DEUS SELVAGEM- III- PARTE- O PORTADOR DO AMOR SEM FIM.(OS ULTIMOS DIAS DE OSCAR WILDE).

domingo, 7 de junho de 2009.
Paris, 27 de Novembro de 1900, Hotel d´Alsace na Rue de Beaux-Arts no Quartier.

***Sou portador do amor sem fim, daquele que não ousa dizer o seu nome. Eu ousei amar de forma proibida, mas quem tem a autoridade moral de dizer que tal amor não pode ser vivenciado?
***Entreguei á vós meu coração apaixonado, mesmo sabendo que se descoberto eu poderia pagar um alto preço. Poucos amaram como eu vos amei, poucos se doaram a alguém como eu fiz em relação a vossa persona.
***Eu que me tornei famoso e rico por meu talento com as letras, enchendo os teatros com minhas peças de dramaturgia inspiradas, eu que tive meus livros destas mesmas peças vendidos aos milhares nas livrarias, eu que tive um imenso reconhecimento pela critica literária com o único romance que escrevi, O retrato de Doryan Gray, e sendo assim, conheci o estado de espírito, que é estar no Olimpo dos literatos consagrados, hoje estou de mãos vazias, abandonado, pois caí em pura desgraça pessoal por vos ter amado.
***Ah meu doce amor, me armaste uma grande armadilha, agora sei, me usastes vilmente em mais umas de tuas disputas com teu pai, aquele que chamam do nobre Marquês de Queensberry.
***Pensando que estava o levando aos tribunais por injúria e calúnia, eu é que estava me levando às barras da justiça, diante de juízes, promotores de acusação, michês pagos por teu pai, provas contundentes contra mim, em forma de cartas de amor que vos escrevi.
***Atiram-me em duas prisões, antes de me lançaram naquela que seria a definitiva, na qual eu ficaria por dois longos anos, trancafiado no cárcere de Reding Goal.
***Minha esposa afastou-se de mim, e legalmente também afastou meus filhos de minha presença, nunca mais verei Cyril e Vyvyan novamente.
***Meu nome se tornou maldito, ninguém ousa pronunciá-lo, sou uma anátema para a maioria dos meus amigos, apenas uns poucos como Robert Ross não me abandonaram.
***Estou gravemente doente, muito mais enfermo na alma que no corpo, tiram-me tudo, dinheiro, fama, família, amigos e minha própria dignidade artística e humana. Tiram-me até a vós mesmo, sendo que me pergunto se algum dia eu lhe tive, ou fui vitima fácil do teu amor efêmero, enganador e aproveitador.
***Deixei para sempre a Inglaterra, nunca mais contemplarei com meus olhos a minha linda Londres, com seus salões de festas nobres, cheias de refinados cavalheiros ingleses com suas belas damas a tiracolo.
***Nunca mais ouvirei os aplausos ás minhas peças nos portentosos teatros londrinos, nunca mais verei “O leque de Lady Windemere”, “Uma mulher sem importância” ou ainda “A importância de ser sério” serem encenadas novamente, para mim já chegou o ultimo ato, o pano há de descer por uma ultima vez, e saiba oh meu querido Bosie, ele não será outra vez erguido para que eu seja de novo ovacionado pelo publico em estado de puro estase.
***Agora ao escrever-te esta dolorosa carta, eis que estou em Paris, usando um pseudônimo para assinar meus atuais escritos, chamo-me agora Sebastian Melmoth.
***Sempre senti perto de mim um deus selvagem querendo me estripar e devorar vivo, nunca comentei isso com ninguém, nem contigo, também não ousei jamais citar mesmo que matáforicamente essa minha sensação em um dos meus escritos. O porque disso eu não sei. Talvez eu tivesse medo de que se de alguma forma eu me expressa-se falando sobre ele, seja por palavras que saissem de minha boca, ou através de minha arte literária, esse deus profano e selvagem pudesse do vazio que há no nada, se materializar e consumir-me com sua gula semelhante a de um animal esfomeado e ensandecido.
***Mas de nada adiantou-me ter todo esse cuidado, pois no dia que te conheci, e me entreguei ao seu amor, neste mesmo dia, sem que eu percebesse ou me desse conta, esse deus de aspecto animalesco começou palatinaumente a me comer vivo, pedacinho por pedacinho. Ele é e foi essa paixão aterradora e abrasadora que senti, sinto e hei de sentir por vós, Bosie, até o ultimo segundo de minha triste vida.

Do seu sempre, Oscar Wilde.

PS: Meu Deus, como esse papel de parede é horrivel, alguém precisa trocá-lo imediatamente.

ELTON DAS NEVES O ANJO DAS LETRAS.

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Esta prosa poética é em tributo ao grande escritor irlandês,Oscar Wilde- (Dublin, 16 de outubro de 1854Paris, 30 de novembro de 1900).
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A pintura que ilustra o texto acima, intitula-se "Saturno devorando a un hijo"- 1819-1823-(Saturno devorando a um filho)-,essa tela é da autoria de Francisco José de Goya- 30 de Março de 1746- Fuendetodos-, Saragoça-, 15 de Abril de 1828- Bordéus.


 Renato Russo - Strani Amori

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