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DEUS SELVAGEM- IV- E ULTIMA PARTE - AS PEDRAS NOS BOLSOS DE VIRGINIA WOOLF.

terça-feira, 9 de junho de 2009.

****Agora estou sozinha, caminho apenas comigo mesma, meus bolsos estão cheios de pedras, caminho em tua direção oh, Ouse, quero sentir teu abraço gélido e definitivo.
****Tenho certeza de que estou ficando louca novamente, sinto meus nervos se estilhaçarem como um frágil cristal ao impactar-se ao chão. Ouço vozes a me dizerem coisas que não desejo ouvir, consegues escutá-las Ouse, como eu as escuto com os ouvidos de minha mente deprimida?
****Agora ao meu lado pareço sentir a presença de Leonard, ele parece ter um sorriso triste, eu sei que estou fazendo a coisa certa, o fardo que lhe sou será tirado, e não só das suas costas, como também as de Vanessa, minha irmã, com quem o tem dividido, ao conviverem com a bipolaridade de minha doença.
****Já não consigo ler e nem escrever, portanto é-me impossível trabalhar, o que me restou então a fazer, pode responder-me Ouse?Qual sentido tem para a vida de uma escritora se ela não pode mais adquirir conhecimento lendo, e passa-lo através de sua pena autoral escrevendo?
****Sentirei falta da chama bruxuleante da lareira de casa, dos meus amigos, das reuniões que fazíamos ao compormos o célebre grupo de intelectuais de Bloomsbury. A era vitoriana com sua sociedade e cultura retrógrada já se foi, e nós, em nosso colégio de livres pensadores a contestávamos até o fim.
****Sentirei falta da luz matutina, dos bichos de minha casa, do perfume das flores do meu jardim, dos livros que tenho, como os que foram escritos por Mansfield***, desde que ela se foi,como eu havia dito,por toda minha vida,em intervalos ininterruptos, pensei nela e em sua literatura moderna e redentora. Sentirei falta do amor bondoso de Leonard, dos dias em que fomos por demais felizes, nenhum casal poderia ter sido tão feliz como nós conseguimos ser. E, sobretudo sentirei a falta de Vita***, do sentimento escondido pelas aparências enganosas,disfarçadas em uma amizade normal.
****Desde pequena, Ouse, sinto a presença de um deus selvagem sequioso para devorar-me viva, senti suas mordidas ferozes e caninas, nos abusos sexuais que sofri de meu meio irmão, na perda de minha mãe quando eu só tinha treze anos, e nas duas guerras mundiais que vivenciei, e, sobretudo no tratamento desumano que recebi em um sanatório para tratamento de mulheres loucas. Hoje este deus satisfaz sua fome animalesca, comendo-me através de sua boca Ouse. Não desejo mais fugir deste deus cruel e impiedoso, entrego-me de vez a sua fúria divina, ao seu apetite de uma voracidade hercúlea.
****Ouse dê-me agora teu beijo plácido, e leve-me daqui, aonde sonhar é bem melhor do que estar acordada.


ELTON DAS NEVES O ANJO DAS LETRAS.
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***Mansfield- Katherine Mansfield, pseudônimo de Kathleen Mansfield Beauchamp (Wellington, Nova Zelândia; 14 de outubro de 1888 - Fontainebleau, França, 9 de janeiro de 1923) foi uma proeminente escritora neozelandesa de histórias curtas, junto com Virginia Woolf com quem foi comteporânea, inaugurou uma nova forma de se fazer literatura em sua época.
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*** VITA- Vita Sackville- West, foi uma socialate da aristocracia britânica, também ela poetisa e feminista como Virginia Woolf, com quem teria tido relações homossexuais.
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Esta prosa é em tributo á grande escritora inglesa Virginia Woolf- Londres, 25 de Janeiro de 1882Sussex, 28 de Março de 1941.
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“O preço barato do papel é a razão por que as mulheres começaram por ter êxito na literatura, antes de o alcançarem noutras profissões”. Virginia Woolf.

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A foto clássica que ilustra o texto acima é de Virginia Woolf quando jovem.

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