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O meu anseio cresce por ti!!!- I parte.- A manifestação da palavra!!!

terça-feira, 16 de junho de 2009.
  Quando a palavra ganha vida...- ( Versão corrigida).

        A palavra contida oprime o peito e sai aos borbotões, feito enchente de chuva de verão. E de repente a luz se faz! Claridão, certeza do que se quer e por que se luta. Na metáfora deste conto fantasia, Elton Sipião O Anjo das Letras, desnuda-se. Grita ao mundo sua opção de vida: a palavra escrita é sua profissão de fé.
Fui sua primeira leitora aqui no Recanto das Letras. O conto estava caoticamente postado de uma única vez, mas fui fisgada pelo título: “O Meu Anseio Cresce por Ti”. Usei da minha persistência de educadora para ler, chegar até o fim e comentar. Disse-lhe que havia gostado do que li, mas sugeri a postagem em partes, pois havia ficado exausta!Ele acatou e desde então somos amigos, leitores um do outro e, enfim, parceiros.
Um ano depois, Elton me enviou os originais do conto e disse: “Confio em você, faça como se fosse seu.” Amigo, obrigado por sua confiança. Revisei com muito carinho, intervi quando achei necessário. Estou feliz em contribuir com seu jeito original de declarar amor incondicional a literatura.

Edna Lopes.


[O meu anseio cresce por ti!].
“Parte I - A manifestação da Palavra”.


“O meu peito está inchando,
é a criação que pede passagem...”
(Raul Seixas).

        “O meu anseio cresce por ti, sinto que te moves em meu seio. Não posso prender-te por mais tempo dentro de mim, queres rasgar o meu peito e sair, queres abandonar a minha alma, lugar de tua origem, de onde flui abrasiva, fulgurante, consumidora e possuidora do meu eu. Espírito puro, que em alguns se manifesta sagrado, em outros profanos, manifesta–te na alma humana a seu bel-prazer. És a criatividade que dentro de mim é entidade divina, criadora de mundos, personagens, criaturas, cenários que só eu posso ver! Articuladora de tantas situações inusitadas que confesso: algumas gostaria de vivenciá-las, outras exorcizá-las, pois refletem os meus piores medos.
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       Ouço-te em todas as dimensões. No meu sonho és matéria viva e não posso fingir que não te compreendo. No meu sonho, sou teu servo e dono, algoz e amante. E me rendo. Por muito tempo ouvi e ignorei tua voz em meu interior: - “Deixa-me sair, preciso ganhar o mundo, eu sou a palavra pensada e sentida! Preciso que me deixes manifestar através da tua pena, deixe-me ir, ou vou devorar-te por dentro, ou vou consumir-te em suas entranhas. Quero começar uma nova criação, porque a primeira foi feita através de mim, à palavra falada, a palavra enunciada. E faça-se a luz! E a luz foi feita. (Gênesis cap. 1; 3). Vomita-me, deixa-me ganhar as ruas, os guetos, as alamedas, os cortiços, as grandes coberturas, os majestosos palácios, a alma do grande e do pequeno. Quero possuir teu pai e tua mãe, o teu irmão e a tua irmã, a alma do teu melhor amigo e tomar de assalto o espírito da mulher dele. Empunhando a espada secular da sabedoria, eu quero conquistar desde o nascer ao pôr-do-sol as multidões que esperam ouvir a minha voz. Solta-me, filho da terra, do ar da água e do fogo, filho do Deus israelita, filho adotivo da mulher vestida de sol, anjo caído e desconhecido, arcanjo profético de todas as letras e de todas as línguas, vomita-me agora, porque a trinta e oito anos tens me deixado presa no sacrário da tua alma”.
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       A tua ânsia em deixar o meu interior é como o ardor de um fogo espiritual, queima no âmago mais profundo do meu ser! Desde a mais tenra idade ouço tua voz a pedir que te deixes sair. Desde quando me encontrava no seio de minha mãe eu te sentia perto de mim e isso parecia ser uma luz quente, de acalanto, um sinal de predestinação para os que nascem ungidos por tua presença, unção essa concedida por um anjo que carrega um chifre em sua mão, repleto de um óleo extraído da arvore sapiencial. O óleo da unção escorreu da minha cabeça, da minha fronte, passando pelo meu pescoço, tórax, tomando os meus braços e pernas, e foi absorvido por cada poro da minha pele, e tomando de assalto o meu intimo , apossou-se da minha alma, deixando uma marca indelével. Com o formato de uma letra, a décima sexta do alfabeto ocidental, os predestinados que são possuídos por ti a carregarão até o fim de suas vidas, nada poderá apagar a marca deixada pela unção.
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Agora, para persuadir-me, tocas nas profundezas mais escuras da minha memória e faz-me lembrar do ósculo santo e ardente que o anjo me deu depois de me ungir, estimulado ainda pelo teu toque posso ouvir a voz dele, que sussurrada ao meu ouvido, me disse:- “Ouça-me e não te arrependerás, pequeno rebento. Foste escolhido pela mais nobre e bela dama para portar o maior de todos os dons, o dom da palavra. Escreverás com o talento de um serafim antigo e a muito esquecido, portador da chama poética que brilha na mente daqueles que anseiam invadir os recintos do palácio da sabedoria.
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       O teu coração seráfico que sucumbe à paixão pelo Verbo, é o inferno aonde queimam a alma dos literatas, porque o dom que lhes foi concedido pela unção angelical é mais que um dom intelectual, pois nele vem inserido o fogo passional dos serafins. É na volúpia desse fogo espiritual que viverá para sempre essas almas escolhidas, suas chamas são aquelas que queimam, mas não consomem, por isso quando escreverem o farão com o mais supremo ardor de seus corações e de suas almas.
Revelarei, pois, como se chama a nobre dama que te concedeu a terrível e maravilhosa habilidade de manipular a palavra escrita! Na verdade o seu augusto nome é impronunciável, língua humana nenhuma pode proferi-lo e este que lhe falarei é o que a tua pobre mente mortal pode entender. Sussurrarei com clareza o seu nome, não te assustes com o frescor contagiante do meu hálito e com a aproximação do meu sussurro em teu ouvido, que parecerá o som de uma leve brisa roçando entre as folhas de uma árvore.
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       Escutai com atenção meu pequeno menino, o nome dela é “Senhora Literatura”, a filha predileta da Senhora Sabedoria, a irmã mais amada da Senhora Justiça, amiga inseparável da Senhora Verdade, esposa sacrossanta do Conhecimento Universal e será vossa mãe e mãe de todos aqueles que como tu são agraciados pela aquisição do seu inefável dom de levar a palavra escrita à mente e aos corações de todos os homens, seus irmãos e irmãs. Nunca desprezes esse precioso dom, cumpri com o vosso destino e escrevei!
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       Saiba que, se não cumprires estes propósitos no fim dos teus dias o anjo que vive no exílio do esquecimento e do qual herdastes o talento que agora tens em mãos, virá a ti, te pegará pelo braço e te levará a um lugar que, certamente, não desejarás ir. Em sua mão direita ele trará a tua sentença punitiva enquanto que na esquerda erguerá a foice dos carrascos! Numa manhã cinza de inverno caminharão por uma estreita estrada de barro e chegarão a uma região erma, cercada por um vasto arvoredo, ali o teu carrasco seráfico lerá a tua sentença e selará o teu destino com a punição dos apóstatas.
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       Ai daqueles que pisotearam com desprezo a sagrada unção, concedida por essa dulcíssima senhora, a qual sirvo com irrepreensível fidelidade desde o início de todas as coisas. Ai daqueles que sufocaram com a sua rebeldia a palavra, a letra, pela qual tudo que existe no plano visível e invisível foi criado! E é ainda por ela que todo conhecimento angelical e humano foi e é transmitido, ai desses abomináveis infiéis que a deixaram morrer dentro de seu peito, seria melhor que suas mães tivessem feito o mesmo com eles, não os deixando nascer, mas fazendo de seus ventres sepulcros, para que pudessem sentir na pele a gravidade do seu erro, e no ocaso de suas vidas não tivesse que ouvir a voz do seu acusador angélico a reboar em seus ouvidos, como terrível trovão a recitar as palavras que ouvido humano nenhum desejaria ouvir e contidas naquele documento que anjo algum jamais desejaria portar em suas santas mãos. Cuide, pois de preservar a sua alma imortal, da mácula da apostasia, da renúncia do precioso dom e da missão que vossa mãe espiritual, a senhora Literatura, vos confiou: dar vida a palavra através da tua pena, que em suas mãos deverá brilhar como a luz de um lampião para os olhos daqueles que anseiam chegar, seguros, a casa da senhora sabedoria! Para unirem-se a ela em matrimônio, ou empunhá-la como uma espada flamejante contra as flores do mal, que trazem consigo os espinhos da ignorância, intolerância, e maldade humanas.
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       Volto ao real e percebo que te aquietas em mim, sinto um silencio profundo, todo o meu ser parece compartilhar dessa profunda e intima quietude, mente alma e corpo!A sensação que tenho é que afastastes a tua mão não só das áreas mais obscuras da minha memória, mas de todo meu ser. Sinto-me vazio e abandonado, em teu lugar apenas ficou o peso da minha culpa e a sombra fria do meu horroroso pecado de ter te sufocado dentro do meu seio!
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       A mágoa pelo que te fiz é outro sentimento que agora me visita. Feri-te á fio de espada quase te partindo ao meio, fazendo-te sangrar profusamente. Posso até ouvir-te gritar e o que ouço é um grito lancinante. Agora és tu que me feres afastando-te, negando-me a sensação da tua presença, calando a tua voz em meu intimo. É estranho não mais ser fustigado por ti exigindo que eu te deixe sair, exigência que era um grito uníssono de mil vozes, ao menos é o que sempre me pareceu. O teu calar ressentido é um reflexo do meu comportamento equivocado, queres me mostrar o que tenho feito a ti e a mim por todos esses anos, não usando o rico dom que me foi dado pela doce senhora de nome impronunciável, e que me foi dado à graça de conhecê-la como a Senhora Literatura!
Silêncio! É tudo o que somente escuto, ele agora é o meu companheiro punitivo, o seu beijo frio me aflige, ele trás consigo a senhora solidão que agora é minha sombria acompanhante.
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       Imploro a ti que voltes a falar comigo, tu que és a doce amiga daqueles que amam o colóquio humano, a aquisição do conhecimento dos homens pela escrita e pelo estudo dela. Palavra bendita, letra que vivifica, instrumento de criação de DEUS, que ordenou a homens e anjos te deixar manifestar pela palavra escrita e falada, para que por ti todo conhecimento, seja ele divino ou humano, fosse transmitido e aprendido, falai de novo comigo e não me punas com a tua indiferença!
Palavra de vida, falai!


CONTINUA...

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ELTON SIPIÃO O ANJO DAS LETRAS.

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