quarta-feira, 17 de junho de 2009

O meu anseio cresce por ti!!! - II- parte . - A fantasia pede carona!!!


       Depois de uma breve ausência de enunciação de palavras, sendo que me pareceu demasiadamente longa, ouço-te dizer com os ouvidos do meu coração: - "levanta-te, troca de roupa, colocai roupas de frio, pois irás passar alguns dias fora de tua casa, deverás ir até as montanhas procurar o velho índio, teu amigo, lá ele te dirá o que deves fazer".
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       Novamente o teu silêncio se abate sobre mim! A tua ordem me foi dada e sei que devo obedecê-la, o tempo de rebeldia e desobediência à tua voz ficou para trás, a tua ausência no sacrário de minha alma me deu a impressão exata de que me arrancaram braços e pernas, juntamente com o sopro vital que estava inserido em meu espírito! Não quero mais experimentar tal sensação! Ouço se aproximar o som sinistro do vento, que parece um uivo de lobo sanguinário que vem me acossar. Sinto seu sopro gélido a me envolver, agora parece ter se multiplicado em uivos de mil lobos que correm em meu encalço desejosos para me ladearem e me devorarem vivo!
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       Eu me levanto cambaleante para preparar-me para a viagem às montanhas, onde mora esse amigo meu, um velho índio, xamã de sua tribo. Sei que somente ele me ajudará a reparar o erro de fechar-me a tua voz e ao exercício sublime de manipular-te através de minha pena, que molhada de quando em quando com tinta preta, ao realizar o ato da escrita, tu te materializas no branco do pergaminho e na alma do seu portador. Ele ajudará a me iluminar, pois há anos vem advertindo-me acerca desta minha atitude deplorável. Suas admoestações constantes me alertaram que esse momento que agora vivencio, iria chegar um dia e suas palavras proféticas se cumpriram com precisão.
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       Entro no carro e parto em direção a grande muralha de rocha sólida, região montanhosa e verdejante onde há anos esse grande feiticeiro se exilou para buscar sua iluminação interior, distanciando-se de sua tribo e da sociedade dos homens brancos, levando consigo apenas livros de vários segmentos da literatura e centenas de rolos feitos de couro de animais aonde foram escritos a mão muito da riqueza sócio-político e cultural do seu povo. Ele me disse: - "O grande Espírito me ensinou que nenhuma cultura humana deve ser desprezada! Isso seria um grande erro para quem busca sua iluminação pessoal. O estudo e a compreensão de todas elas é o caminho mais fácil para consegui-la! O preconceito é filho da ignorância, ele é o grande empecilho para se alcançar o conhecimento, que por sua vez é a porta que se abre para atingirmos essa tão desejada “iluminação interior".
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        Nunca esqueci desse seu sábio ensinamento e por isso pouco me importa se ele é um guru de nossa sociedade branca, um pajé ou um xamã. Sei que irei ao encontro de um homem que não vê em credos, cor, língua e raça barreiras para se alcançar o lindo palácio da Senhora Sabedoria, mãe de minha mãe, a Senhora Literatura!
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       A convicção de que procuro a pessoa certa está na ordem que me foi dada pela "Palavra" e é seguindo à orientação dessa ordem que vou ao seu encontro. Tenho gravada em minha mente suas últimas palavras, quando me ordenaste: - “Vai, lá ele te dirá o que deves fazer”.
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       O vento continua a soprar sempre me meu encalço, açoitando a lataria externa do carro que, de quando em quando é sacudido pela violência do seu forte sopro! O som que ele emite não é mais o uivo de uma alcatéia de lobos, mas agora se assemelha a um coro de centenas de vozes que parecem sussurrar a palavra:

- penitência, penitência, penitência! Sim, sei que devo me penitenciar e é o que farei no momento oportuno. Isso ocorrerá assim que puder chegar aquele lugar sagrado, no topo da mais alta montanha, dentre esse conjunto de montanhas, aonde me dirijo.
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       Reflito que aquele que quiser ser um falcão deve procurar as alturas, não às profundezas e, de súbito, o coro de vozes sombrias parece mudar as notas de sua sinfonia, pois não é mais a palavra “penitência” que elas pronunciam! O que é dito por elas agora é a enunciação de um nome, - Rimbaud, Rimbaud, Rimbaud! –um terrível arrepio percorre todo o meu corpo, pois esse sinistro coro de vozes humanas parece pronunciar tal nome com terror e angustiado horror, ao menos é o que se nota na forma como elas o pronunciam! – Rimbaud, Rimbaud, Rimbaud!
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       Nesse momento um suave mais penetrante perfume de mirra adentra o interior do meu carro, um odor misterioso, que me lembra o incenso que os sacerdotes da igreja católica romana usam em seus rituais sagrados. "Poeta maldito! Poeta maldito! Maldito! Maldito"! – as vozes parecem agora dizer, a aflição parece escoar no timbre de cada uma delas! O perfume do incenso penetra na minha alma, fazendo que eu sinta uma presença poderosa de uma entidade que não posso discernir quem seja! Apenas posso senti-la, parecendo querer me esmagar com a força do seu imenso poder.
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        A manifestação dessa presença misteriosa e, primeiramente sentida pelo coro funesto de vozes, produzidas ao que me pareceu pelo gélido e sinistro vento! Deu-me a impressão de exorcizá-las para bem longe dali, pois assim que o cheiro místico chegou as minhas narinas e através delas, de forma misteriosa atingindo o meu espírito, as vozes se calaram de súbito, ficando apenas os últimos sons do eco das palavras maldito, maldito, maldito! Sim, algo ou alguém havia me livrado da desenfreada perseguição daqueles que me pareciam espíritos do mal.
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       O forte vento então se transforma numa suave brisa, todo o meu ser é envolvido por um sentimento de puro alívio e sossego. A minha alma parece estar impreguinada pelo doce perfume daquele místico incenso, a mirra que dele provem parece estar inserida em cada partícula das células que compõem meu corpo! Aquela presença, dona de extremo poder espiritual, parece cada vez mais se aproximar de onde eu estou, sendo que para isso seria necessário que ela, essa presença, a qual não sei explicar claramente o que seja, teria que estar me seguindo, vindo ao encalço do veículo que dirijo! Uma coisa eu sei! Logo saberei o que ou quem é essa misteriosa presença.
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       Já estou há muitas horas a rodar sozinho, nessa solitária estrada em direção às montanhas. Por onde passo, não vejo viva alma, apenas o céu azul acima do capô do veículo é meu companheiro de viagem, os acontecimentos que me ocorreram até agora desde que a voz interior da palavra a mim se manifestou me estarreceram ao extremo, a atmosfera do sobrenatural pareceu me envolver desde então! Tudo parece me levar a um fim por mim ainda desconhecido, tal qual um ator de uma longa novela que tem de seguir um roteiro do qual ele ainda não é sabedor do seu final, e por conseqüência desconhece qual será o destino reservado ao seu personagem na trama!
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       Este sentimento de estar sendo simplesmente levado por um poder superior que por hora foge a minha compreensão, me traz uma incômoda sensação de impotência. Pareço atravessar um mar de horas nessa estrada poeirenta que rodo! E como já disse não havia até agora visto uma viva alma , quando a exatamente a alguns poucos metros de um ponto da pista em que estou, percebo a figura de alguém á beira da estrada com o braço levantado e com o polegar voltado pra cima, no gesto bastante conhecido de quem pede carona. Noto que se trata da figura de um jovem rapaz com uma mochila ás costas. Misteriosamente, o cheiro do incenso de mirra desaparece, simplesmente se desvanece!
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       Resolvo então parar e dar a carona, afinal como já foi dito por mim, estou na estrada há horas sozinho, sem ver ninguém que seja ao longo dela, então penso que um pouco de companhia ainda que de um desconhecido me fará bem e a sensação de solidão sempre me foi desconfortável ao extremo. Ao entrar no carro e se sentar ao meu lado no lugar do passageiro, o rapaz retirando a mochila para colocá-la em seu colo e assim poder encostar-se à poltrona sem ser incomodado pelo volume das coisas que trazia em seu interior, me sorri como que agradecido e me diz: - Há horas que venho esperando que alguém passe para me dar carona, já estava quase desistindo de ter esperanças em relação á isso.

- Para onde você esta se dirigindo?

- Para as montanhas á frente. Então eu digo a ele que também estou indo nessa mesma direção, ele me sorri com um sorriso franco e jovial, desde a primeira vez que me falou me surpreendi quando seu sotaque francês chegou aos meus ouvidos, pois esperava encontrar qualquer um por aquelas paragens, menos um rapaz provindo da distante França!
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       Retribuindo seu sorriso em um gesto cordial, lhe pergunto o seu nome. Apertando a mochila que está colocada em seu colo com suas alvas mãos, o jovem rapaz francês me responde: - Meu nome é Rimbaud! Arthur Rimbaud ás suas ordens. De repente, o cheiro do incenso de mirra como que vindo do nada retorna as minhas narinas, assim como a sensação daquela poderosa presença já citada por mim antes! E que provinha ou estava de alguma maneira relacionada ao odor do incenso.Só que agora era diferente, aquela mesma presença de grande poder sobrenatural não vinha mais do perfume da mirra, mas do próprio jovem francês que estava sentado ao meu lado, e que para minha total surpresa dizia se chamar Arthur Rimbaud! Seria o jovem poeta nascido e falecido na França no século XIX? Como uma pessoa morta há exatos cento e dezesseis anos, poderia estar ali, ao meu lado, sentado no banco do carona do meu carro? – essa era uma das perguntas que apenas aquele rapaz podia me responder, até porque naquela imensa e suja estrada em que rodávamos, estava evidente que estávamos absolutamente a sós!
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       Como se uma bomba nuclear tivesse caído por aquelas terras, e assim sendo, houvesse sobrado apenas nós dois, homens de mundos e de épocas totalmente distintas uma da outra. Eu, pertencente ao mundo moderno do século vinte e um e ele um célebre escritor da era vitoriana, do século XIX, dono de uma das biografias mais polêmicas da história da literatura. Imediatamente veio á minha memória, a lembrança do que estavam a dizer, as vozes horrorizadas daqueles seres que me perseguiam implacavelmente através do soprar frio do vento, que me acompanhou boa parte daquela minha atribulada viagem, - Rimbaud, Rimbaud, Rimbaud! - e depois que o perfume do misterioso incenso de mirra se materializou do nada, elas ainda disseram para depois sumirem de vez: - Poeta maldito, poeta maldito, maldito, maldito...
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       Tudo de repente ficara claro para mim! Os tais seres donos daquelas vozes sinistras, haviam fugido ao sentirem a aproximação do jovem poeta, agora sei que a entidade de extremo poder espiritual, e que através do perfume da mirra fazia sentir sua presença quase me esmagando em meu íntimo era ele, Rimbaud! Por incrível coincidência, ao amaldiçoarem-no, mal sabiam aqueles espíritos, que no meio literário Arthur Rimbaud ficara conhecido como um dos poetas malditos de sua época, o que para um poeta do grandíssimo nível dele, se tornara um elogio.
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       Deparando-me com essa nova situação, totalmente surreal para mim, ter como meu passageiro o fantasma de Arthur Rimbaud! Algo que nem nos meus sonhos mais delirantes poderia imaginar, comecei a tremer de medo e apreensão, seja de um grande poeta que se tornou uma das grandes referências da literatura francesa ou não, um fantasma é um fantasma, e ser assombrado por um, ainda que seja por um personagem histórico daquela envergadura, não esta nos planos de ninguém.
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       Percebendo minha confusão e sentindo todo o meu temor e tremor, Rimbaud sorriu e, em sua expressão facial, pareceu compreender perfeitamente o que eu estava sentindo e por que estava sentindo, parecendo querer me acalmar, ele põe a mão em meu joelho e de forma bondosa me diz: - Sei o que esta pensando e sentindo meu caro, isso também esta sendo algo novo para mim, voltar a esse plano físico fora do meu corpo, pois o que você pensava que em mim era carne, sangue e ossos, não passa de pura composição espiritual, pode chamá-la do que bem quiser e entender, espírito, alma, enfim. Mas o que é importante e o que quero que saiba é que não estou aqui para lhe fazer mal e sim pra ajudá-lo, haja vista que te livrei daqueles demônios intoleráveis lá atrás, não? O fato é que, apesar de ser um fantasma de um sujeito que morreu há mais de um século, eu não vim com o intuito de aterrorizá-lo! Apesar de que quando eu vivia nesse mundo, além da minha poesia também fiquei famoso por ser dono de brincadeiras de gosto duvidoso, no entanto pode ficar sossegado, que depois de morto não vou ficar brincando de assombrar ninguém.

- Você disse que está aqui para me ajudar, o que está querendo dizer com isso?

- Bom, espero que depois de todos esses acontecimentos prá lá de antinaturais que lhe tem ocorrido, você não tenha perdido o senso do significado das palavras! Principalmente da palavra “ajudar”! Eu fui enviado de volta para este plano de vida, para conscientizá-lo da sua vocação literária! Tenho de fazê-lo ver que tens de escrever, explorar, como você até hoje não o fez, o seu talento para arte da escrita, tu tens de deixar a palavra brotar da ponta da tua pena, deixá-la falar aos corações dos homens através da tua literatura.
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       Quando Rimbaud acabou de me dizer tais palavras, mesmo ainda envolvido por certa atmosfera de medo, que havia sido amenizada pelo fato de que ele havia me garantido que ali estava não para me fazer mal e sim para me ajudar, não pude deixar de soltar um sorriso sarcástico. Percebendo o sarcasmo do meu sorriso, o jovem poeta francês meneia a cabeça, como que parecendo saber o que viria pela frente.

- Posso saber o motivo do riso?

- Sim pode! Você, que aos vinte anos, resolveu parar de escrever definitivamente, veio me ajudar a começar a fazê-lo?

- Saiba meu caro, que se eu não estivesse incumbido de uma missão sagrada, o teu pecado de ter zombado de um enviado daquela, que tem o poder da sabedoria e da criação divina em suas mãos, seria castigado com a morte. No entanto, lhe aviso que tenha mais cuidado no futuro, principalmente ao julgar razões de fatos que não são do seu conhecimento. Na verdade sei que como todos os que admiram minha obra literária, você sempre se perguntou por que procedi dessa forma. Por que no auge dos meus vinte anos de idade, calei de vez minha alma poética fazendo minha pena descansar e resolvi partir para a África para me dedicar ao tráfico de armas.
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       Arrependido pelo meu lamentável comportamento, por um rápido momento eu volto meu olhar a Rimbaud e lhe digo: - Me perdoe caro poeta, não leve em conta minha triste atitude. Não quis caçoar de ti é que todos esses estranhos acontecimentos, de certa forma tem mexido com os meus nervos. Não sei direito o que pensar ou fazer em uma situação dessas em que me encontro.

–Está perdoado meu amigo, não se preocupe com isso. No entanto, deves entender que a minha situação de ter parado de escrever, é totalmente diferente da tua. Pelo que sei apesar de teres nascido com o dom de escrever bem, tu depois de teres começado á se dedicar á arte da escrita, resolvestes depois de algum tempo abandoná-la, movido pelas tuas desilusões pessoais! Quanto a mim está óbvio porque parei.

–Como assim? O mundo literário se pergunta até hoje, por que um dos maiores ícones da poesia simbolista francesa resolve abandonar os versos no alto de sua adolescência. E, com todo o respeito que lhe devo caro poeta, tu me dizes que isso parece óbvio?
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       Olhando-me de soslaio, Rimbaud não pôde evitar um suspiro de impaciência e, com uma expressão facial que demonstrava inconformismo, me diz:- Aqueles que pertencem ao meio literário é que tem causado tanto questionamento por nada. Vocês não conseguem enxergar que ainda muito jovem fui desperto para a minha vocação literária! Aos quatorze anos de idade quando participei do meu primeiro concurso de redação escolar, deixei registrado para quem quisesse ver, que tive um sonho com Febo, deus do sol, que ao aparecer para mim disse-me: -Tu vates eris! Isto é, tu serás poeta! Daquele dia em diante tive a certeza de quem eu era e o que vim fazer nesse mundo: Seria um poeta.  E assim, com toda coragem, obstinação e paixão de adolescente, que me possibilitaram, antes dos vinte anos, atingir a expressão máxima de minha arte e conseguindo atingi-la, não tinha mais nada a dizer ao mundo através dos meus versos!A única coisa que me restava a fazer era buscar novos limites, na época ir para a África, fazer dinheiro me pareceu uma grande idéia. Bom meu amigo, espero ter respondido a você e ao resto da humanidade, o porquê resolvi deixar a poesia ao completar vinte anos de vida, e sendo assim que me deixem descansar em paz sem tantos questionamentos.
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       Naquele momento, não pude deixar de pensar quantas pessoas que amavam a arte poética de Arthur Rimbaud desejariam estar em meu lugar e o que dariam pra escutar de sua própria boca a explicação daquela dúvida que inquietava suas almas!Dúvida essa que eu não tinha mais.

- Espero que agora perceba o quanto o meu caso foi distinto do teu, deixei de escrever quando havia conseguido atingir o pináculo da minha obra literária, enquanto você que mal começou á galgar até á sua, desiludido por suas atribulações interiores, resolveu parar, desistir!

- E como sabes que tenho um grande talento, se nunca leu nada que escrevi! Até porque nunca publiquei nada, ninguém me conhece no mundo das letras, ninguém leu coisa alguma de minha autoria, pois tudo que escrevi só eu conheço?

- Aquela que me mandou vir até aqui pra conscientizá-lo de tua vocação literária, não se daria ao trabalho de fazê-lo, se não tivesse te concedido o dom de escrever bem, não acha? A própria palavra não se manifestaria a ti por vontade dela que me enviou, se tu não passasses de um escrevinheiro qualquer.

- Afinal de contas quem é que te enviou a mim e por que tu ó poeta mencionas tal pessoa como Aquela, ou ela que tem o poder da sabedoria e da criação divina em suas mãos?
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       Rimbaud então ergue sua cabeça, assim como as suas mãos e eleva seu olhar para o teto do carro. Só que percebo que seu olhar na verdade está indo mais além, parecendo atingir um plano superior muito distante dali aonde nos encontramos. Um plano que só ele, o jovem poeta nascido na pequena cidade de Charleville, situada ao norte de Paris na França, pode ver. Seu rosto parece então brilhar com o mesmo fulgor do sol em um forte verão e, com sua voz embargada de emoção, ele me diz: - Tu meu caro amigo, já ouviste falar dela, quando a palavra com seu sagrado toque na área de tua memória, te fez lembrar-se do dia que o anjo da santa unção te visitou no seio de tua mãe. E lá além de outras tantas coisas, lhe falou da pia senhora de nome impronunciável para os profanos lábios humanos, mas que para ti o mesmo anjo te fez conhecê-la como Senhora Literatura! Foi ela que a ti me enviou.Sim, tudo parecia agora fazer sentido! O despertar da voz interior da palavra em meu coração, a lembrança perdida recuperada pela minha memória ao seu toque, a ordem que me foi dada para vir às montanhas ter com meu velho amigo, o índio xamã e aquele encontro inesperado com Arthur Rimbaud, fora tudo um plano arquitetado por uma força superior. Mas do que nunca eu me sentia aquele ator já mencionado por mim, que não tinha idéia do destino final do personagem que estava protagonizando! Porém, agora eu sabia que o roteirista que me escrevera o papel, era também o diretor daquela trama de atmosfera mística em que eu estava atuando, ou melhor, ao invés de diretor e roteirista, devo mencionar tal força superior e misteriosa, como roteirista e diretora, já que tanto o anjo da unção, como Rimbaud, se referem a essa força ou ser superior, como ela, a Senhora Literatura.
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       Tal força me conduzira até ali provavelmente para a seqüência final daquela inusitada novela que escrevera para que eu á encenasse! Não pude deixar de achar graça no ator “coadjuvante” escolhido para atuar ao meu lado, nada mais e nada menos que o sagrado poeta simbolista, Arthur Rimbaud! Quem um dia iria acreditar em mim? Se nem eu mesmo parecia acreditar...
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       Rimbaud, então parece sair daquele estado de pura elevação espiritual, como se de repente acordasse de um profundo sono, então se voltando para mim me diz: - Pare. Desse ponto em diante seguiremos a pé, vamos sair dessa pista asfaltada. Pegaremos uma estreita estrada de terra, que então nos levará para solo sagrado, cultuado á anos pelos povos indígenas.

– Mas não é mais seguro irmos de carro?-eu então lhe pergunto não gostando da idéia de abandonar meu veículo ali, naquela estrada deserta. Rimbaud, mantendo uma expressão séria em seu jovem rosto, dono de uma beleza poucas vezes vista por mim, parece certo da decisão que tomara por nós dois, suas palavras além dessa sua expressão me mostram isso ao me dizer: - Não necessitaremos mais dessa sua máquina, nossos pés serão suficientes para nos levarem a salvo ao nosso destino, eu lhe garanto!Agora falta pouco para o fim de jornada que empreendestes para responder plenamente á tua vocação literária meu caro. Só te peço que tenha fé em mim, confie, eu serei teu guia, apenas até certo ponto do caminho! Fique atento, pois sinto que aqueles demônios que deixamos lá atrás da estrada á algumas horas, voltarão a nos importunar, por isso ficai ao meu lado, não se perca de mim, sou sua única proteção contra eles, tu bem o sabes.
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       Resolvi não mais questioná-lo, avancei ainda alguns metros com o carro, quando avistei a nossa direita a referida estrada de terra. Estranhei aquilo, pois há anos sempre que podia visitava o xamã, meu velho amigo, nunca percebera aquela estrada ali. Como que adivinhando meus pensamentos em relação a isso, Rimbaud me explica: - Não estranhe o aparecimento dessa estrada meu amigo, ela foi aberta nesse exato momento para nós, especialmente para mim e pra você. Ficai muito atento, e lembre-se que deves caminhar sempre ao meu lado.
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       Girando a chave na ignição, eu desligo o motor. O poeta e eu então descemos juntos do veículo, levando conosco apenas nossas mochilas, começamos então nossa caminhada por aquela estreita estrada de terra, em direção as montanhas. O Vento retorna com seu soprar frio, o seu assobio a reverberar em nossos ouvidos, o pó da estrada sendo levantado por suas mãos gélidas em nossos rostos. Apenas o som de nossos passos a nos acompanhar naquela região erma, lá longe no alto, se escuta o pio de um falcão, a impressão que me dá é de que estamos sendo observados por olhos curiosos, apesar de saber que estamos sozinhos naquelas paragens desérticas.
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       Depois de termos andado bem uns quinze metros naquela via de chão acidentado, apesar de plano, Rimbaud faz um gesto com a mão, eu então o obedeço e paro, sem nada dizer, o poeta que morrera á bem mais de um século atrás, vitima de um câncer que surgiu em uma de suas pernas, se espalhando depois por todo o corpo, abaixa-se e apanha um pedaço de madeira solta de arvores que nos circundam mais ou menos do tamanho de uns quinze centímetros e, para minha surpresa, faz em nosso redor um circulo ao mesmo tempo em que diz: - Agora esse espaço em que nos encontramos, é sagrado e enquanto ficarmos em seu interior, estaremos protegidos. A partir desse momento à hora da prova chegou para ti, e que os espíritos bem aventurados dos santos anjos, e dos antigos literatos, estejam contigo para te proteger e orientar.

        Sem entender muito o significado daquelas palavras, eu nada pergunto.Resolvi, dali por diante, me render aquela mão misteriosa, que resolvera escrever para mim, o roteiro dessa estranha novela, da qual me parecia ser eu o protagonista central. Então atendendo ao gesto de Rimbaud, que me sinaliza que devo me sentar ao seu lado, no meio do circulo por ele desenhado, me acomodo naquele chão empoeirado, pensando no que viria depois. Passamos algumas horas em silêncio, sem conversarmos, nesse ínterim aproveito para comer algo que carrego em minha mochila, pois desde que sai de casa para abraçar aquela empreitada nada digeri. Após arrefecer minha fome, percebo que a noite cai sobre nossas cabeças por aquelas terras esquecidas por Deus, a lua com sua face prateada nos sorri, em seu céu circundada por estrelas que brilham como pequenas lágrimas a escorrer no firmamento.
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       O pio solitário do falcão é mais uma vez ouvido, ele parece nos seguir, nosso único companheiro naquela jornada que parece estar entremeada por tantos mistérios e segredos. Bom eu não preciso dizer que Rimbaud nada comeu, assim como tenho certeza que o sopro frio e incomodo do vento não lhe era sentido. Conjecturei que ser um fantasma nesse mundo tem lá suas vantagens, quanto a mim, que sou de carne e osso, mesmo estando devidamente vestido não tenho outro jeito se não o de tremer de frio. Um oceano de horas parece passar por nós, a madrugada nos advém, quando em dado momento sou despertado por Rimbaud. Adormecera sem perceber e esfregando os olhos, noto o crepitar da pequena fogueira acesa talvez pelo poeta, enquanto eu dormia a sono solto.

–Resolvi não acender a fogueira de imediato assim que anoiteceu, para não atrair logo a presença dos seres que costumam dançar ao redor das fogueiras dos viajantes nas estradas, não preciso dizer que eles fazem isso estando invisíveis, por se tratarem de espíritos das trevas! Mas eu sabia que tinha de fazê-lo em algum momento da madrugada que caiu sobre nós, ou você iria morrer congelado por esse clima frio, que é como uma açoitar do látego para os corpos humanos.

– Mas porque me acordaste a essa altura da madrugada? Não teremos que estar de pé assim que o dia clarear?

- Não podemos esperar tanto. A tua prova começa agora, já! Tu tens de sair da proteção deste circulo e ir para trás dessas arvores que nos cercam. Apesar dos espíritos do mal terem sido atraídos para junto de nós pela luz desta fogueira, eles não podem transpor os limites desse espaço sagrado criado por mim. Mas eu lhe garanto meu caro, que eles estão lá fora, ao redor desta circunferência mística, a nos esperar e espreitar. Tu deverás passar por tal prova sozinho e ela lhe será um teste decisivo. Tu sairás dela marcado ou com o merecimento de poder ser um instrumento benfazejo da palavra aqui nesta vida, ou sem tal prêmio de grande valor, o que seria uma desgraça para alguém como tu, que nasceu para leva – lá aos confins da terra.
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       Concluída a prova sem lograr êxito, tu bem já o sabes, pagarás com tua vida, sendo executado pelo carrasco angélico, do qual herdastes o dom da escrita e será o final de tua existência entre os mortais. Por isso, eu lhe previno: não dês ouvidos as palavras inúteis desses espíritos galhofeiros, moradores dos recintos mais profundos do inferno. Mantenha-se firme em seu propósito de passar incólume por esse teste a ti conferido e poderás viver até o fim desta tua vida terrena na companhia da bendita palavra.

- Um dia, na eternidade, irás ser dignamente premiado ao poder contemplar com teus próprios olhos, a face gloriosa de tua imaculada mãe, a Senhora Literatura! E com ela então vais morar, sendo ajuntado na assembléia das almas dos literatos de todos os tempos. E eu meu amigo, estarei junto deles a lhe esperar em grande regozijo. Agora vá, não olhes para trás e no tempo oportuno irei ter contigo, certo que estou de teu sucesso em passar bem por tal provação.

-Mas que tipo de prova terei que realizar? Não irás me dizer?

-Não serei eu que te direi tal coisa, mas quando chegares perto do local aonde deverá realizar tua prova, isso te será revelado. Agora caminhe na direção daquelas árvores e vá para detrás delas. Leve contigo uma tocha para iluminar teu caminho e lembre-se daquilo do que já lhe preveni, ensurdeça para as vozes tentadoras daqueles espíritos de perdição, ou toda essa jornada empreendida por nós terá sido em vão.


CONTINUA...

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ELTON SIPIÃO O ANJO DAS LETRAS. 



Arthur Rimbaud- importante ícone da poesia simbolista francesa de todos os tempos, nascido em Charleville- França em 20 de outubro de 1854, falecido em Marselha 10 de novembro de 1891.

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