quinta-feira, 18 de junho de 2009

O meu anseio cresce por ti-III- Parte. A prova penitêncial e o encontro com a mulher vestida de sol!



******Sem nada a dizer, apanho minha mochila e a coloco sobre as costas, saio do circulo, apanho um pedaço de galho de árvore que estava caído próximo de onde estávamos e faço dele uma tocha, acendendo-o na fogueira que ardia à minha frente.
---

****** Despeço-me cordialmente do poeta e sigo em direção das arvores citadas por ele e me projeto atrás delas. Deparo-me com um terreno íngreme, uma ribanceira que me leva por vezes a tropeçar em seu percurso acidentado e escarpado. Desço por ela até o fim e, levantando a tocha que trago comigo, vejo-me diante de uma figura muito diferente de tudo que já vi em toda minha vida! Esse personagem deveria ter uns dois metros de altura, os cabelos loiros e cacheados, a pele alva como a neve e trajava uma túnica branquíssima que refulgia com uma luz própria, parecia que uma super-nova tinha descido a terra!
----

******No entanto, de todas as características peculiares daquele ser misterioso, a que mais me chamou a atenção, foi seu par de grandes asas. Ao me aproximar de forma temerosa dele, fui saudado por aquele ser angélico que me olhava com o olhar sério e fixo, sua voz chegou aos meus ouvidos como se fosse o som de muitas águas: - Sou o anjo do exílio, já ouviu falar de mim, sou aquele do qual herdastes o dom da arte da escrita e por tua resoluta teimosia em não corresponder ao talento literário a ti conferido, me encerrei em um exílio de tristeza e dor suprema.
----

******Todo escritor herda seu talento literário de um determinado anjo, pertencente à hierarquia dos serafins, chamados por isso mesmo de anjos das letras. Toda vez que alguém que foi agraciado com tal herança divina a despreza, não correspondendo a exigência primordial relacionada á ela, que é escrever, o anjo mencionado se exila em uma prisão de tremendo sofrimento. Há apenas duas maneiras de um anjo das letras se livrar dessa prisão que ele mesmo se lhe impôs. Uma é interceder junto a Senhora Literatura que abra os cegos olhos do literato desobediente. E a outra é aguardar o dia escolhido por essa poderosa rainha, para ir ao encontro desse filho ingrato e lhe pronunciar as palavras terríveis de sua condenação, depois levá-lo há um lugar ermo e solitário para ali executá-lo!
---

******Geralmente é na velhice que tal dia é escolhido e indicado pela minha soberana senhora, para que se aplique o castigo. Sei muito bem que tu já sabes de tudo isso, nada do que lhe digo é novidade. Fui enviado para lhe revelar qual foi à prova escolhida para ti e deves passar por ela como sinal de penitência, por teus anos longos de total desobediência, e para que te mostres digno do dom que de mim herdastes. Ao ouvir tais palavras lhe indago que prova será essa, ao que aquele glorioso cidadão dos céus me responde:
-Tu ó bendito filho meu, deves seguir adiante, uns dezesseis metros, então irás se deparar com uma criatura fantástica, mágica, que não pertence a esse mundo. É uma ave com plumagem de ouro, um pássaro de beleza e magia rara, tem um canto lindo e tão sublime, que aqueles que o ouvirem e tiverem alguma enfermidade, logo serão curados. Pouquíssimas vezes esse ser encantado veio visitar a terra e quando o fez, foi para agraciar alguns ditosos filhos da minha gloriosa Senhora, A Rainha Literatura, com uma de suas penas de puro ouro. Muitos desses escritores tiveram suas mentes especialmente iluminadas e inspiradas, por portarem em suas mãos tais penas de boa-venturança. Willian Shaskeapeare, Dante Alighieri, C.S.Lewis, Oscar Wilde, e o teu companheiro de viagem, Arthur Rimbaud e mais alguns fazem parte de uma pequeníssima lista desses filhos ditosos que lhe mencionei.
----

******Tua prova penitencial e teste de merecimento será a de apanhar entre a vasta plumagem do magnífico pássaro uma pena de ouro e trazê-la até mim. Aparentemente a tarefa parece fácil, mas por experiência própria, verá que a coisa não é bem assim. Desde que deixaste o circulo de proteção feito pelo poeta francês, os inimigos de tua alma te seguem para se acercarem de ti e quando chegar à hora oportuna para as sua pretensões maléficas, eles se manifestarão com grande malicia, para te tentar e te perder. Faço minhas as recomendações do poeta: não deves dar ouvido a estes teus inimigos espirituais, ficai atento e firme em seus propósitos já por ti estabelecidos ou, como também já te foi alertado, tudo estará perdido, cuidai para que isso não aconteça. Vá em paz agora, com minha copiosas bênçãos.
----

******Depois de me despedir do luminoso anjo, com uma respeitosa reverencia, parto então para a minha tarefa. Sigo em frente. Depois de ter dado vários passos adiante, a luz que era projetada do corpo do Serafim das letras, já não ilumina meu caminho, devido à distância que dele tomei, só posso agora contar com a iluminação da tocha que comigo trouxe desde que abandonei Rimbaud lá atrás, no círculo de proteção. Quando já havia caminhado os dezesseis metros referido pelo Serafim das letras, me deparo com uma cena inaudita!Contemplo uma criatura única, de beleza e graciosidade nunca vista antes por mim, exceto pelo anjo que me aparecera com toda certeza instantes lá atrás. Trata-se não de um ser angélico, mas de um frondoso pássaro, todas as penas que constituíam sua vasta e ampla plumagem, era de um dourado refulgente.
----

******Eu não precisava mais da luz tosca de minha tocha, porque ela fora obscurecida por aquele sol pleno de fogo e luminosidade que era aquela extraordinária criatura! Capaz então de iluminar de tal forma aquilo que até então fora noite, transformando-a em dia. Jogando então fora a tocha que não era mais necessária, com admiração e sentindo extrema atração por tal visão de um contexto surrealista, me aproximo da ave, reconhecendo nela, a criatura descrita a mim pelo anjo. Era daquela maravilhosa ave de magnífico esplendor dourado, que deveria apanhar uma das penas e levá-la então comigo!
-----

******Ao me achegar para perto dela, a ave ergue seu olhar para mim, abre o bico, e entoa então um canto. O som por ela produzido é de uma beleza indescritível, de tal forma que me fere docemente a alma. Enlevado e embevecido pelo seu cantar, me ajoelho diante da ave e a abraço e esta por sua vez se deixa aninhar e repousa ternamente sua cabeça em meu peito. E por instantes assim ficamos: ela aninhada junto ao meu seio e eu envolvido totalmente por aquele canto místico, que parecia um suave bálsamo de fino alabastro a escorrer por toda minha alma, a curar todas as minhas feridas.
----

******De súbito, a ave se desvencilha dos meus braços, como que assustada por alguma coisa que só ela pareceu notar, então acordando daquele êxtase de doçura indescritível, abro meu olhos, e percebo que não estamos sozinhos. Estáticas, e de pé diante de nós, estão três mulheres de aspecto muito jovem, seus cabelos negros e ondulados que lhes caiam até a cintura eram idênticos. Seus rostos que refletiam grande beleza tinham o aspecto altivo, seus enormes olhos negros traziam um olhar frio e ao mesmo tempo penetrante. Era horrível a sensação de ser focado por eles.
----

******Seus corpos esguios de cintura fina, pernas e braços alongados, trajavam túnicas negras. O pássaro de plumagem dourada se afasta parecendo temê-las, inclusive soltando um esguicho que demonstra bem isso. Aquele seu esplendoroso brilho semelhante ao do sol em um ardente verão, arrefece , ficando agora igual á luz pálida da lua. Percebendo que há algo de muitíssimo errado, me levanto sobre meus trêmulos pés e as encaro de frente.
–Então Rimbaud, aquele maldito poeta resolveu deixar-te só?
Diz uma delas. Noto que diferenciá-las é totalmente impossível, então me recompondo o mais rápido que posso daquela súbita aparição, lhe respondo: - Sei quem são vocês, fui alertado por ele e pelo anjo a respeito de vossa aproximação no tempo que lhe fosse oportuno. No entanto lhes peço que se afastem daqui, e não pensem em me impedir de cumprir a tarefa a mim incumbida, pois se necessário for eu lutarei e resistirei a vocês, seu demônios galhofeiros.
–Não deveria ouvir a Rimbaud, conhecido como o sodomita! Diz outra com um sorriso de escárnio.
Eu sabia a que aquele demônio em forma de mulher estava querendo aludir, pois quem conhece um pouco de história da literatura francesa, sabe que Arthur Rimbaud quando vivera nesse mundo era homossexual e tivera um tórrido caso de amor com outro grande poeta simbolista de França, chamado Paul Verlaine. No entanto, julgar mal uma pessoa por sua orientação sexual, na minha modesta opinião, fora um grave erro dos países da Europa no século dezenove! Quando penso que gênios literários como Paul Verlaine e Oscar Wilde, foram encerrados injustamente em prisões como se fossem fétidos criminosos, só pelo fato de terem opção sexual diferente daquela que era permitido na época, meu coração se revolta em desprezo por aquela retrógrada e reacionária mentalidade daqueles tempos.
-----

******Ao se referirem de forma tão preconceituosa á Rimbaud, compreendi que ao agirem daquele modo com os seus intelectuais-a sociedade européia daquele século, só poderia estar sendo guiada por aqueles demônios deploráveis, que tinham como principal intuito, fazer com que o homem ficasse mergulhado no pântano do preconceito, da ignorância, crueldade, intolerância e maldade humanas.
-----

******Olhando para dentro do meu coração, os demônios perceberam que aquele tipo de abordagem não iria ter o efeito desejado comigo. Então se voltando para o pássaro, as três sinistras mulheres tentam dele se aproximar. Ao perceber, a emplumada criatura recua soltando um som de desaprovação por tal tentativa. Isso faz com que elas desistam de chegar perto da ave e àquela que ainda não havia a mim dirigido à palavra, dirige seu olhar frio e de foco perfurador para mim e me diz:
-Tanto Rimbaud como o anjo, lhe disseram que se matares este pássaro encantado e comerdes de sua carne tu terás juventude e conhecimento inesgotável, eterno?
-----

******Eu sabia do poder curativo do canto daquele magnífico pássaro, pela boca do anjo e por experiência própria, pois ao ouvir seu cantar enquanto estava aninhado em meus braços, senti que todo meu ser era curado de suas mazelas. Por isso ainda que a sugestão na pergunta feita pelo demônio aos meus ouvidos fosse deplorável, deduzi que aquilo deveria ser verdade, por se tratar aquela ave de uma criatura de grande poder mágico.
-----

******Então, aquele espírito demoníaco em forma de mulher que me formulara a tal pergunta, retira do interior de sua veste, um punhal de prata, contendo uma serpente de ouro incrustada em sua lâmina. Estende as mãos e me oferece a adaga prateada dizendo-me:- Pois bem, deduzistes de forma correta em teu coração, essa criatura majestosa de plumagem dourada, pertence aos jardins divinos da Senhora Literatura e se trata realmente de um pássaro que carrega em seu sangue e carne poderes místicos inacreditáveis. Se comerdes de sua carne e beberes de seu sangue, viverás eternamente jovem e terás infinito conhecimento de todas as coisas. E, pertencendo ela á “tua sagrada mãe”, ela não se importará se matares o pássaro para obteres o que é teu de direito, pois tudo que é de tua mãe também é teu, não é assim?
-----

******No meu íntimo sei que se eu seguir a linha de raciocínio sugerida por aquele demônio, será definitivamente o meu fim. Aquilo que me era proposto era de uma malicia tão inacreditável que só poderia ter vindo de uma moradora das profundezas.
- Afastem-se de mim agora, espíritos da perdição humana, voltem para os abismos sombrios de onde vieram! Gritei.
Inconformadas com a minha recusa em lhes ceder á sua tentação, os demônios berram em uníssono e, de forma ameaçadora, avançam lentamente em minha direção. A que tentara oferecer a adaga para que eu matasse o pássaro, agora a empunha contra mim.
-----

****** De repente o inesperado acontece! A ave que antes perdera seu ofuscante brilho ensolarado, e que o tempo todo ficara acuado com a presença maligna daquelas funestas mulheres, recupera o brilho original de sua rica plumagem. Seu medo agora é substituído por uma imensa coragem e presença de espírito tais, que faz com que ela fique entre mim e as minhas atacantes infernais fazendo com que sejam obrigadas a recuar, totalmente surpreendidas pela transformação da ave.
-----

******O demônio que estava segurando o punhal, assustado o deixa cair, então o brilho refulgente e dourado da ave se intensifica de forma brutal e com isso tenho meus olhos ofuscados e os três espíritos de mulheres demônios gritam horrorizadas, para depois desaparecerem no ar. Quando abro os olhos, só estamos eu e a ave a nos contemplar.
-----

******Então sem que eu espere, ela estende uma de suas asas, e eu entendo que devo retirar dali a pena almejada e é justamente isso que eu faço. Então a magnífica ave, solta de sua garganta, um som estridente e desaparece bem diante dos meus olhos.
-----

******Uma súbita escuridão toma conta do lugar onde estou. Compreendo que eu fora salvo pelo pássaro em retribuição por não ter dado ouvido a absurda proposta dos demônios em sacrificar sua vida para obter juventude e conhecimento absoluto eternos. Então sem por isso esperar, noto que novamente as trevas são expulsas de minha presença, o anjo das letras reaparece e a tudo ilumina com sua luz própria. Olhando para ele, lhe estendo a mão, e ofereço a pena de ouro retirado do pássaro sagrado. Ele a apanha, me sorri francamente e me diz:- Passastes bem por tua prova meu rapaz, ficou firme até o fim, agora lhe levarei ao cume da mais alta montanha dessa sagrada região, para que possas ter com teu velho amigo índio, o xamã.
----

******E assim dizendo ele me apanha em seus braços, e alça vôo conduzindo-me com a velocidade do vento. Lentamente o amanhecer de um novo dia se aproxima e lá do alto posso enxergar com nitidez, a luz matinal invadindo paulatinamente os montes, colinas, vales e outeiros daquela região magnífica! E quando definitivamente o dia nasce, noto que o sol não pode aparecer, oculto que está por um céu de nuvens cinzas e pesadas. Logo vislumbro a colossal montanha, aonde sou esperado pelo reverenciado xamã. Lá chegando, o anjo pousa suavemente, tocando com seus enormes pés brancos, o terreno gramado do cume daquela alta montanha, teto de toda aquela região de geografia montanhosa e de arvoredos frondosos.
-----

******Ao me colocar no chão, ele olha ao seu redor, e vê á alguns metros de nós, a cabana do meu velho amigo, encimada por uma chaminé fumegante. Voltando então seu olhar para mim, noto quanta ternura e doçura há nele, e ao me sorrir ele me diz:
- Estou indo para o céu, já que agora estou livre da prisão de dor e sofrimento que me impus por tua causa. Alegro-me porque no fim dos teus dias não serei teu carrasco, mas apenas o teu amigo seráfico que te doou o dom da escrita. Porém, antes de voltar para o consórcio dos espíritos angelicais, quero te dizer uma coisa. Então ele aprofunda aquele seu doce olhar em mim e com lágrimas nos olhos diz-me:- Eu o amo, e quero que através do teu trabalho com as letras, seja uma pessoa bem sucedida e realizada. Sobretudo que deixes o amor dirigir todos os teus passos daqui por diante. Eu te abençôo, meu filho.
-----

******Ao dizer aquelas palavras, ele começa a subir suavemente na direção do céu, até desaparecer no meio das altas nuvens. Fico então distraído olhando para o alto, quando sou despertado por uma mão que repousa em meu ombro, ao me virar, me deparo com o rosto sorridente do xamã, que como eu olha embevecido para o mesmo ponto no firmamento em que desaparecera o anjo.
–Venha comigo meu amigo, me diz ele. -Sei por que aqui viestes! Dias de sombras te assolaram para que dias de luz te adviessem. O momento do teu despertar chegou.
-----

******Segurando uma das alças de minha mochila, o acompanho a uns dez metros adiante. Quando então chegamos de fronte a sua cabana, ele pede para que eu me sente no chão, aonde brota a mais verde grama que já vi. Obedeço-o, assentando-me com as pernas cruzadas. Retiro das costas a minha mochila, e a coloco no chão ao meu lado. O velho índio se coloca de pé á minha direita e com os olhos fechados levanta as suas mãos ao céu. Solta um imenso brado em seu dialeto, abrindo os olhos repentinamente.
------

******Então a natureza se transforma ao nosso redor, o vento frio para de soltar seu sopro gelado, as nuvens escuras tornam-se brancas como se fossem feitas de puro algodão. E o mais impressionante acontece! Essas mesmas nuvens começam a se abrir como se fossem portas abertas por mãos invisíveis e delas se movendo lentamente, numa descida suave e graciosa, ladeada por uma miríade de anjos, trajados com as mais alvas túnicas que já vi em toda minha vida, vejo uma linda jovem. Seu vestido de fios de ouro lhe cobre todo o seu corpo, do pescoço aos pés, estes mesmos pés estão calçados com um par de sandálias confeccionadas com prata, e engastadas com os mais preciosos diamantes jamais vistos em toda terra, tamanho o esplendor deles. Seus cabelos loiros que lhe caem até o meio das costas, são semelhantes aos raios da mais bela alvorada, seus fios escorrem como cascatas douradas e se confundem ao se acomodarem com o tecido de fios de ouro de seu exuberante traje.
----

******Ela vem sentada em um glorioso trono que parece ser feito de pura luz, os anjos a cercam por todos os lados, uns segurando respeitosamente a barra de seu vestido, outros seguram pequenas almofadas, onde estão repousados um cetro e uma coroa. E há outros ainda que tocam instrumentos musicais, como a harpa, a flauta doce e a cítara . A música em beleza e em encanto, só pode ser comparada com o canto do pássaro de penas de ouro.
---

******Embevecimento e uma paz profunda e inaudita tomam conta de todo o meu ser, quando então aquela jovem mulher de extraordinária beleza e magnificência, pousa com sua comitiva celestial junto de mim e do meu amigo xamã. Este, por sua vez prestando a ela respeitosa reverência, se retira me deixando a sós com aqueles visitantes do céu. A jovem rainha que parecia ser revestida do próprio sol, delicadamente desce de seu trono de luz, tendo seus pés beijados por alguns anjos que se prostram diante dela para reverenciá-la. Ela então se aproxima de mim e me pareceu que a própria primavera tinha se achegado, com todo o perfume das flores e com toda luz e calor daquela doce estação.
-----

******A nobre dama de formosura indescritível me sorri e fora como se mil sóis me sorrissem, toda minha alma se iluminara como se o mais arrebatador verão tivesse chegado, e expulsado para bem longe toda treva e escuridão nela contida. Sua voz delicada e entremeada por uma doçura inenarrável, faz com que eu estremeça de súbito, então a ouço dizer:- Meu querido filho sou a tua mãe, a Senhora Literatura! Não deveis temer a nada, passastes honrosamente por tua prova praticando tua penitência e mostrando o teu valor. Hoje te fizestes digno do dom que lhe dei pelo ministério dos anjos, de manipular com tua pena a palavra que vivifica e que também mata. A palavra, o verbo, a letra, chamem vós homens como a chamarem, é a extensão da minha voz aqui na terra e foi ela que tu calaste por todos esses anos dentro do teu peito.
- Mas estes dias de tua acomodação ficaram para trás e teu pecado foi perdoado. Doravante empunharás tua pena e farás dela a tua espada de justiça contra a intolerância e maldade humana. No dia que os homens aprenderem que é possível mudar o mundo com a força da pena e dos livros, eles encontraram a redenção definitiva para suas mazelas e desgraças.
-----

******Ao ouvir aquelas palavras, percebo que o meu intento ao chegar até ali, foi conseguido plenamente. Até de uma forma nunca imaginada por mim. Mais do que voltar a ouvir a voz da palavra em meu interior, não só ouço, mas tenho a graça única de ver, aquela que a criou, e me fez dela arauto do seu brado no meio do convívio dos homens. Quem a vê viu a palavra encarnada, quem a ouve ouviu também a voz dessa mesma palavra! Sendo assim, se tenho o seu perdão, é com a palavra que estou reconciliado.
-----

******Eu poderia ficar eternamente na extraordinária presença daquela imperatriz da eterna sabedoria e nunca me cansar de ouvir o som terno e de profunda doçura de sua voz, que como bálsamo curativo tocava minha pobre alma humana, curando-a de seus males, assim que suas palavras em meus ouvidos chegavam. Temia que aquilo acabasse subitamente, desejava para sempre ficar perto daquela dulcíssima mãe de minha alma. Enxergando claramente tal temor em meu coração, ela toca carinhosamente em meu rosto, em com um sorriso de bondade me diz: - Meu filho, por enquanto devemos nos separar, mas espiritualmente, sempre estarei presente em sua vida. E quando sua hora chegar, eu virei pessoalmente te buscar. Cuide para quando saíres dessa montanha, cumprirdes fielmente com aquilo que te incumbi de fazer. Ao falar assim, ela retorna ao seu trono cercado pela multidão de anjos que com ela vieram, e ao se assentar, me dirige um último olhar, como a se despedir e nem que se passem mil séculos, jamais esquecerei as coisas que por ele me foram transmitidas.
----

******Os anjos, ao me dizerem adeus, me prestam respeitosa reverencia e assim como vieram, aquela celestial comitiva parte subindo lentamente em direção do firmamento, até desaparecerem em meio às brancas nuvens, que se abrem novamente, desta vez para recebê-los. Subitamente me vejo só, mas como há muito tempo não acontecia, paz, amor e alegria se faziam presentes em meu coração e de uma forma nunca antes sentida por mim.

CONTINUA...

---------------------

ELTON DAS NEVES O ANJO DAS LETRAS.

Nenhum comentário: