sexta-feira, 19 de junho de 2009

O MEU ANSEIO CRESCE POR TI!- ULTIMA PARTE- DE VOLTA PARA CASA.

*******Depois de três dias passados na companhia do meu velho companheiro índio, desço a montanha para ir embora. Despeço-me, cheio de gratidão, por mais uma vez em minha vida poder ter contado com sua ajuda. A descida agora foi fácil e contemplativa. Já dentro do carro, de volta á velha e conhecida estrada, sinto-me feliz como nunca, redimido comigo mesmo. Cantarolo velhas canções e dirijo com calma, atento á paisagem. O sol se ergue radioso e em dias assim, noto como esta região é bela, rica em sua flora de cores múltiplas.
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*******De repente sinto o cheiro peculiar de perfume de mirra. Sorrindo, sem nenhum medo no coração, relembro o que isso significa e de minha boca escapa um nome: - Rimbaud! E materializando-se, Arthur Rimbaud, surge ao meu lado, no lugar reservado ao passageiro. Toca em meu ombro, olha-me e sorri. É um riso feliz, maroto, de garoto arteiro e me fala: - Te saístes muito bem meu amigo, estou orgulhoso de ti.
- Deves de estar mesmo, afinal você resolveu me deixar sozinho, para realizar uma prova em que tive de andar no meio de um arvoredo escuro, em plena madrugada, exposto a todo tipo de perigo,munido somente com uma tocha!
- Não tive escolha meu caro, ordens lá do alto, tinhas que passar pelo teste sem interferência de ninguém. E te avisei que seria teu guia, apenas até certo ponto do caminho!
- E aquela tal promessa que no tempo oportuno irias ter comigo? Perguntei inconformado.
- Pois bem, aqui estou! Este é o tempo a que me referia. Além do que vistes com teus próprios olhos, que estavas bem protegido do assédio daqueles demônios galhofeiros. Qual o espírito do mal que iria resistir ao poder do pássaro de ouro, que passeia garbosamente nos jardins imperiais de nossa augusta mãe, a Senhora Literatura?
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*******Ao terminar esta frase pega do interior de sua mochila uma pena de ouro, a mesma
que retirei da plumagem do pássaro dourado. Segurando-a com reverencia, ele a coloca no bolso de minha jaqueta e diz: - Isso é teu agora, acabaste de entrar no sagrado e diminuto rol dos escritores que possuem tal prêmio.
- É de meu conhecimento que fazes parte desse pequeno notável clube... Gracejei.
Rimbaud nada responde, apenas fica em silêncio olhando para o nada na direção do pára-brisa do carro.
- Viestes se despedir, não?
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*******Fazendo um gesto afirmativo, volta seu olhar para mim, e diz-me:- Tudo será diferente. Tudo será melhor e mais verdadeiro. Quando achares que tens algo a dizer ao mundo através de tua literatura, dize-o. Escreve como nunca escrevestes em toda tua vida. E quando tiveres de se calar para sempre, que possas ter a consciência de que já cumpristes tua missão e que não há nada mais para ser dito. Eu o amo como a um irmão, e sempre estarei ao teu lado, a te ajudar e inspirar, ainda que tu não consigas me ver, sentirás minha presença. E lembra-te de minha promessa: estarei a tua espera na assembléia dos literatos, no palácio da sabedoria de nossa mãe, quando a tua hora chegar. Um dia nos reencontraremos meu irmão.
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*******Rimbaud me beija a face e de súbito desaparece. Nunca mais o vi, mas nas horas difíceis de minha vida, sempre sinto sua presença ao meu lado, a amparar-me, a inspirar-me. Quem acreditaria que o famoso poeta, mestre de belíssima e revolucionária poesia, que aos vinte anos decidiu parar de escrever, me ajudaria a fazê-lo, no alto dos meus trinta e oito anos?
Aos que crêem, sonho é sonho.

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*******Desde então atendo ao teu apelo e te deixo sair. Abri, definitivamente meu peito, onde te encerrei por tanto tempo. Abri, para que ganhes o mundo e tu o ganhas pela ponta de minha pena e pela força do meu sentimento, palavra bendita, palavra maldita, palavra simplesmente palavra. E para todo o sempre te levarei comigo por onde for, até o fim dos meus dias, eu sei que o meu anseio continuará crescendo por ti.
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ELTON DAS NEVES O ANJO DAS LETRAS.


Recentemente, li num blog de uma menina, que numa certa ocasião, Rimbaud resolvera deixar seus cabelos crescerem, até se tornarem compridos. Moradores de um certo lugar, aonde ele se encontrava,acharam aquilo estranho, e começaram a persegui-lo e á apedrejá-lo. Ao ler sobre isso, não pude deixar de me sentir profundamente tocado.
O Anjo das Letras.

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