terça-feira, 28 de setembro de 2010

Chico Boiadeiro!!!

     
     No sertão não tem estradas e nem tem pontes, e por isso os caminhos não são traçados, como não são traçados os caminhos da vida.

     No sertão o cavalo é tudo porque o cavalo não usa nem estrada e nem ponte, e ele trilha a invernada e sobe os morros e desce e atravessa rio a nado com vigor e galhardia.

     O cavalo é livre, e é a liberdade que reparte com o peão na solidão daquele mundo silencioso, com o silêncio do vento e com o silêncio da chuva, que bate no chapelão de abas largas e na capa ponche muito mais que impermeável.

     Não tendo trilha e nem caminho e nem ponte, não tem ninguém para dizer e corrigir a viagem que cada um vai traçando, e o destino não existe porque o que acontece, acontece, e mais nada.

     Chico Boiadeiro era domador de burro bravo e de cavalo xucro e na época das domas, domava dez por dia, um primor.

      Magro, alto, escorrido, pele de índio, olho azul, falava pouco, fazia muito, às vezes coisa boa, às vezes coisa ruim. Diziam que tinha mortes nas costas, duas de bala, duas de faca. Sem tocaia, homem a homem ali no cara a cara. Por causa de mulher, mulher dama, das belas e formosas.

     Casado com a Jandira, há mais de dez anos, cinco filhos, dois dele, três do outro patrão, na hora que ele nem estava em casa, estava na lida. A Jandira era muito bela e o patrão não aceitava não, e o Chico fingia que nem sabia; ciúmes não era coisa de peão. E ele era pobre, e ele não sabia ler e nem escrever, e ele não tinha para onde ir, e precisava daquela ocupação para sustentar a mulher e os filhos, e o patrão ajudava muito com mantimentos, roupas e dinheiro e até presentes, cortes de tecidos para a Jandira e para ele, e ele até ganhara um revólver prateado, 45 cano longo. Ficou anos ali, mas o patrão morreu, a fazenda foi vendida, e ele veio trabalhar na fazenda do meu avô.


     Não digo que sim, nem digo que não. A Jandira era faceira e meu avô era o que era, mas lá isso não vem aqui na história.

     O Chico era o melhor dos peões e o mais valente que tinha, mas bebia mais da conta, jogava muito truco e toda a noite ia visitar a casa das mulheres. Gastava o que tinha e o que não tinha, e pagava o que devia com o dinheiro que meu avô lhe emprestava e ele nunca pagava, e meu avô nunca cobrava.

     O meu avô tinha simpatia por demais pelo Chico Boiadeiro e também pela Jandira, e tanto assim que visitava a casa dele todas as noites, mesmo quando o Chico estava lá no jogo de truco ou com as mulheres da vida, e ele estava todas as noites. E meu avô ficava proseando até tarde com a Jandira, só proseando era o que ele dizia, e eu nunca que duvidava. A Jandira teve mais dois filhos, uma menina e um menino, nenhum de olho azul que nem o Chico, mas isso nem importava porque as crianças enxergavam muito bem, até demais.

     O peão que é peão trata bem o seu cavalo e nisso o Chico falhava no inteiro. Ele deixava o cavalo amarrado e arreado na porta da zona a noite inteira, sem água e sem comida, e ficava farreando lá dentro até de madrugada e, depois, pendendo de bêbado, montava no pobre animal e cortava o bicho nas esporas e no chicote, uma judiação. Meu avô não gostava disso e já tinha ameaçado de mandá-lo embora, e só não mandava porque a Jandira pedia, e meu avô não sabia dizer não para a bonita e formosa Jandira.

     No sertão não tem estrada e o peão cavalga de dia ou de noite pela invernada e pelo rumo que na hora é da preferência.

     Chico Boiadeiro tinha um rabicho com a Tânia, uma moça muito linda, largada do marido e que morava numa fazenda vizinha. Chico ficou até de madrugada ali com ela, a Tânia, e depois de ter bebido pinga a noite inteira, montou no baio e rumou na escuridão de breu. O cavalo ia a passo, assim por meia légua, quando, de repente, saindo do nada o monstro apareceu e fez o que tinha que fazer: acabar com o baio cansado, sedento e faminto, e mandar o Chico para o outro mundo que não é dos vivos.

    O monstro era uma vaca louca, chifruda, brava, furiosa, que algumas vacas ficavam assim quando pariam bezerro no meio da invernada, e avançavam em cima de quem chegava perto sem nada saber.

     Era de noite, madrugada, escuro que nem breu e a vaca saiu do nada e enfiou quase meio metro de chifres no bucho do cavalo que caiu e morreu estrebuchando.

     O Chico Boiadeiro, babando de tão bêbado, caiu de costas e, quando tentou se levantar foi atravessado pelos dois chifres da vaca e morreu sem nem saber que morreu.

      Levaram mais de dois dias para encontrar o corpo. Ele e o cavalo estavam já comidos pelos urubus e estavam sem olhos que são os primeiros que essas aves agourentas gostam de devorar.

      Foi feito o velório, com muito mau cheiro do defunto decomposto, depois o enterro. Meu avô comprou o caixão. Houve preces e choro e depois todos voltaram para casa. Todos, menos eu e mais dois peões que a gente tinha a incumbência de rastrear a vaca assassina e capturar ou matar a bicha para que ela não fizesse outras vítimas.

     Os peões eram gente inventiva, que não sabiam nem ler e nem escrever, mas que gostavam de ouvir e de contar histórias cheias de horrores feios, de assombrações, de almas penadas. Diziam que a vaca estava “tomada pelo AQUELE OUTRO, pelo CUJO, pelo SATÃ, e que ela, vaca do capim, agora bebia sangue e comia carne humana.” Eu escutava tudo aquilo, mas não contrariava, porque conversa de peão ninguém pode duvidar para não ofender e nem criar um inimigo.

     A tarde já ia alta e a noite ia logo cair. A chuva caía desabada e os cavalos patinavam no terreno encharcado e de difícil travessia. Cada um de nós trazia na cinta o revólver 45 cano longo lotado de balas. Cada um de nós trazia uma carabina 45 de doze tiros. Cada um de nós trazia um laço de couro trançado que agüentava o tranco de cinco touros bravios. Cada um de nós sabia que ia enfrentar perigo feio, mas só eu sabia que o perigo era uma vaca enlouquecida pelo parto e que tinha que ser dominada. Os outros dois peões tinham a certeza certeira de que iriam enfrentar o Diabo.

    E o diabo apareceu, vindo da imensidão do nada e já na entrada da noite escura e no meio da forte tempestade.

   Os dois peões quiseram se fazer nas armas, mas eu gritei que não e eles respeitaram.

   A vaca investiu primeiro no Pedrosa que rodopiou o cavalo e se fez no laço, mas errou o lance.


   O Romero laçou o monstro pelos chifres, mas não teve proveito, porque, antes que se firmasse na cela o cavalo dele foi perfurado duplamente na barriga e caiu no estrebuchamento da morte.

   Romero, caído no meio da lama ia ser trespassado pelos chifres assassinos quando Pedrosa, arremessou e acertou, laçando o monstro e puxando, e quase morrendo também, e só não morreu porque a fúria escorregou e patinou no barro, tendo que se aprumar de novo para o ataque. Ia ser o fim do Pedrosa.

   Não teve jeito, eu me fiz no pialo. O pialo era laçar o bicho pelas patas traseiras. Era lance arriscado, quase impossível já naquela escuridão, mas não tinha outro jeito. Se errasse, os dois peões iam morrer e eu também, pois tempo não havia para outro lance e, mesmo atirando, as balas não iam segurar a fera.

   Fiz uma prece ligeira e joguei o laço, mais pelo rumo do que na pontaria, que nem visão havia para isso. O laço pegou e cerrou em torno daquelas patas traseiras.

  Agora era a hora da força. Da força gigantesca do meu cavalo bravio, contra a força da loucura da vaca assassina. Meu cavalo empinou e jogou o corpo para trás, e a vaca caiu, e tentou se levantar, e caiu de novo com outro tremendo e tenaz arranque do meu animal.

  Pedrosa não se fez inerte e lá das alturas do alazão que montava girou o laço que partiu zunindo e envolveu a vaca pelo pescoço, apertando e quase estrangulando. E o monstro aquietou, estava vencido, só ficou ali uma mãe animal, mãe zelosa pelo seu bezerro que vindo de não se sabe onde, correu para mamar.

  Levamos a vaca e o bezerro para a fazenda e tudo terminou.

  Meu avô cuidou da Jandira e dos filhos dela, sete filhos, dois do Chico Boiadeiro. Meu avô arranjou um marido para ela, moço bom, trabalhador, não tinha vícios, sabia até ler e escrever. Com o tempo foram para a cidade onde ele montou casa de comércio com dinheiro emprestado pelo meu avô e teve muito sucesso no negócio. Meu avô de vez em quando aparecia por lá, visitar a ele e visitar a Jandira.

  No sertão não tem estradas nem pontes e a gente anda por ele no cavalo bravio, firme e forte.

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WILSON RODOLPHO DE OLIVEIRA.

Publicado no site: O Melhor da Web em 04/07/2010

Código do Texto: 59298

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