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A garota Satã!- Uma nova amizade.- IV- parte. //Crônicas de Salém.

sábado, 18 de dezembro de 2010.
    O final da aula é sinalizado pelo som alto e agudo da sirene, o prof. Eduardo nos despede nos aconselhando fazer o dever de casa que nos havia dado para ser apresentada no dia seguinte, uma resenha do livro o retrato de Dorian Gray da autoria de Oscar Wilde.

   Rafaela passa por mim rapidamente com passos firmes e com cara de poucos amigos, essa expressão raivosa, só deixava seu rosto ainda mais bonito, e me surpreendi pensando em como tal expressividade de animosidade lhe acentuava a sensualidade natural que vinha dele.

   Peguei de dentro de um dos bolsos da minha jaqueta jeans o papel com o programa das aulas que a secretária do Dante havia me dado, a próxima aula seria matemática e em dose dupla, eu gemi, pois sempre odiei essa matéria.

  O corredor do colégio estava neste momento cheio de alunos e professores que iam e vinham preocupados em alcançar a próxima sala aonde se daria a seguinte disciplina a ser administrada ou estudada por eles.

   Poder voltar ao convívio dos meus iguais estava me fazendo bem, isso de certa forma atingia o objetivo dos médicos ao me aconselharem á voltar ao convívio social, principalmente a rotina diária, fazendo com que paulatinamente e de forma contínua eu pudesse retomar a minha vida normal, como a de tantos adolescentes iguais a mim. E havia uma vantagem nisso, com minha mente ocupada eu não tinha tempo para pensar na dolorosa perda trágica dos meus pais, coisa que mais fazia dentro da minha cabeça deprimida pelo isolamento em que vivia nos últimos meses.

   A aula dupla de matemática pareceu se arrastar por longas horas, quando você não gosta de determinada matéria escolar se tem a impressão que o tempo não passa em uma sala de aula quando tem de estudá-la.

   Rafaela resolveu sentar-se razoavelmente distante de mim, no entanto teve o cuidado de me manter dentro do seu foco de visão, pois de quando e quando lançava olhares interessados em minha direção, como que vigiando meu comportamento dentro da classe.

  Se fosse só isso tal coisa não me incomodaria, afinal já tinha chegado à conclusão que aquela menina loira de olhos azuis escuros, e ar desafiador se tratava de uma maluca obcecada por estórias de vida sombrias como a minha, e por causa disto havia cismado comigo, mas o incomodo se deu porque ela sentou-se um pouco distante de minha mesa aparentemente para juntar-se a dois garotos que diferentemente dos demais de minha turma eu não os conhecia visualmente ainda, afinal eles não tinham participado da aula de literatura como o resto de nós.

   Esses dois garotos, respectivamente aparentando terem dezoito anos, conversavam algo com Rafaela, às vezes se inclinando na direção de sua mesa para cochichar-lhe coisas ao seu ouvido, e muitas vezes isso era seguido da imitação da atitude dela de olhar na minha direção. Agora além da própria Rafaela, mas dois companheiros de sala de aula pareciam bastantes interessados em mim, isso definitivamente me irritou.

   Lembro-me de ter pensado com raiva que as pessoas daquela cidade não passavam de criaturas medíocres em sua alma, que não tinham mais o que fazer do que se alimentar de conversas e bochichos sobre a desgraça da vida alheia.

   Será que eu era tão interessante assim para chamar tanta atenção só porque fiz parte de um acontecimento no mínimo macabro?Eu achava que ao menos tivessem de cuidar das suas próprias vidas me deixando em paz, e deveriam assim respeitar a dor de minha perda.

   A sineta para á hora da pausa toca fazendo estes meus pensamentos de revolta se desvanecer.

   O barulho de cadeiras sendo arrastado ao levantar dos seus jovens ocupantes acompanhado do seu vozerio de tom eufórico ao constatarem o término da aula e a chegada do breve break para poder se tomar um lanche e com isso vir à oportunidade de relaxar um pouco jogando conversa fora, enche o ar do recinto.

   Rafaela antes de sair pela porta a fora da classe junto com seus dois vizinhos de mesa, olha para trás em minha direção, por baixo dos meus cílios noto uma expressão de preocupação desenhada em seu rosto, isso só ajuda cada vez mais a fortalecer a idéia que tenho sobre ela, que essa menina se trata de uma maluca, afinal qual outra explicação se teria para que cismasse assim comigo?O que sabia a meu respeito como ouvira de sua própria boca era do conhecimento de toda a cidade, no entanto excluindo ela e agora seus dois amiguinhos de bate-papo eu não via ninguém ali apresentar algum tipo de obsessão por mim como aquela em que eu percebia nela.

  Chegando a cafeteria do colégio, sentei-me a uma mesa vaga, o burburinho de vozes adolescentes assim como o ruído de seus pés e o arrastar de cadeiras agora ao sentarem-se era enorme ao meu redor.

   Eu estava á fim de descansar um pouco antes de pegar algo para que pudesse ser digerido pelo meu estômago. Então ao meu lado senta-se um garoto de estatura alta, dono de uma musculatura de um verdadeiro halterofilista, tinha os cabelos cacheados de um loiro vivo e muito claro. Ele me sorri amistosamente e estendendo a mão diz-me:- Olá, meu nome é Andrei, você pelo que fiquei sabendo é o Gabriel, não?-eu em resposta também lhe dou minha mão, e ao apertar a sua lhe replico:- Sim, sou o Gabriel, pelo visto até o meu nome todos sabem por aqui.

  Dando-me um sorriso sem graça Andrei meio que sem jeito tenta me explicar o que com outras palavras Rafaela já o tinha feito:- Bom amigo, você está em Salém, isso aqui é pequeno como um ovo, é melhor indo se acostumar com isso, guardar informações nesta cidade é praticamente impossível. Retribuindo seu sorriso com outro meu, só que mais expansivo e natural, eu respondo-lhe:- É já me falaram isso, e estou aprendendo acerca desta característica que me parece ser uma das principais desta cidadezinha nestas ultimas horas que tenho passado aqui no Dante, nada é segredo em Salém!

- Não exagere também Gabriel, como todo lugar Salém tem os seus segredos, só que aqui é mais difícil conservá-los ocultos, deu para sacar?

-Sim deu, mas o que estão dizendo sobre mim pelos corredores do colégio?

- O que você acha que diriam?

-Coisas como se indagando como consegui escapar de ser morto como aconteceu com meus pais, já que eu estava com eles no mesmo instante em que foram chacinados!

-Bom... Não vou lhe enganar, houve, há e haverá todo tipo de comentários ao seu respeito e sobre tudo que lhe aconteceu, mas com o tempo isso cairá no esquecimento de todos, afinal meu chapa, não há bem que perdure ou mal que sempre dure!

   Achando graça no fato de ter usado o dito popular que acabara de enunciar em suas palavras, eu dou um sorriso de duração breve, pois logo fico sério de novo, como eu queria que a verdade de tal ditado popular se verificasse um dia em minha vida. Pois a morte em circunstâncias ainda misteriosas dos meus pais parecia ser um mal que me causaria dor para o resto de minha vida. Naquele momento, ao pensar nisso, abateu-se sobre mim uma saudade de tamanho inenarrável deles. Tive de me segurar ao máximo para conter as lágrimas que ameaçavam querer sair dos meus olhos, sendo assim, baixei minha cabeça e respirei fundo tentando controlar-me, afinal eu não queria me mostrar como a vitima traumatizada perante aquela turba de alunos que enchiam as dependências da cafeteria, estava longe do meu desejo que alguém ali sentisse pena de mim.

   Sentindo-se constrangido pelo rumo que a nossa conversa tinha tomado e o efeito que isso aparentemente havia provocado em mim, Andrei trata de mudar de assunto fazendo um tremendo esforço para não demonstrar algum vestígio de pena que estivesse presente em seu olhar, então me diz: - Olha não foi para tratar deste tipo de assunto que vim no intuito de falar contigo, na verdade queria lhe perguntar se quer fazer parte do time de futsal do Dante, vai haver uma competição inter-colegial na baixada santista na qual vamos participar, eu fui escolhido pelo professor de educação física o Hélio Dantas para ser o capitão do time, sendo assim, ele me deu liberdade para convidar a fazer parte da equipe quem eu achasse que poderia ser um bom reforço para o nosso grupo.

- E como você sabe que eu seria um bom reforço?

- No ano passado o Dante também participou deste campeonato, e quando fomos a Santos fazer um jogo válido por este mesmo torneio, te assisti quando atuou pelo seu ex-colégio, lembro-me de ter achado sua atuação muito boa, poucas vezes vi um atacante tão rápido, ágil e dono de uma habilidade e um chute potente e bem certeiro como você.

    Bom já que era plano dos médicos que cuidavam de mim, assim também como era o meu de voltar à rotina de minha antiga vida, ainda que as coisas não estivessem acontecendo de forma paulatina como estava planejado, pois voltar a jogar futsal no inter-colegial me parecia algo distante ainda para acontecer, resolvi aproveitar a oportunidade e lhe respondi assim ao convite feito: - Bom, eu não esperava voltar às quadras tão cedo em uma competição importante como esta, mas eu aceito, estou precisando de um pouco de adrenalina mesmo, e nada melhor que o futsal para me dar isso, pode contar comigo!

- Ok garoto é assim que se fala, vejo que você é dos meus, adora jogar o meu jogo! Eu Te vejo na quadra amanhã às dez horas, por favor, não se atrase, o prof. Hélio detesta impontualidade nas aulas de educação física, ainda mais em treinos para a preparação do time para o inter-colegial.

- Estarei lá sem falta ou algum atraso, afinal ser irresponsável para com um treino de futsal onde vamos representar o Dante entre os mais importantes colégios da baixada santista seria sacrilégio.

   Soltando uma gargalhada sonora ao ouvir-me falar assim, Andrei solta essa:- Cara, estou conversando só há alguns minutos contigo e já sinto que seremos grandes amigos, e não costumo me enganar com essas coisas, te juro!- ao terminar de dizer essa frase ele se despede de mim apertando desta feita fortemente a minha mão, e levantando da mesa se retira, eu o observo enquanto ele vai na direção de uma mesa cheia de rapazes e moças, ao sentar-se junto deles lhes diz algo que pela distância fica impossível com que eu ouça, no entanto, fica claro que foi sobre mim, pois todo o resto do grupo olha em minha direção com olhares curiosos.

   Resolvo finalmente levantar-me para buscar algo para comer no balcão da cafeteria, ando distraidamente envolto em meus pensamentos, quando dou de encontrão com alguém que andava de frente para mim, após o choque que me despertou da distração das coisas que tinha em minha mente, ergo meus olhos, e com eles, surpreso constato com quem havia me chocado.

Continua...

ELTON SIPIÃO O ANJO DAS LETRAS.

3 Comentários:

Milena disse...

Cada vez melhor. Esse ar de mistério sempre no final me deixa anciosa, rs

Vivian disse...

Olá!!bom Dia!!

Muito interessante!! Estou imersa na leitura!!Fico imaginando o que virá...
Seja Bem-Vindo!! Vou levar seu banner!
Parabéns pelo trabalho!!
Um abraço!
Te desejo muito sucesso!!
Atenciosamente

Valter Montani disse...

Elton
BOAS FESTAS PARA VOCÊ, AMIGOS, FAMILIARES E UM 2011 REPLETO DE REALIZAÇÕES, QUE NÃO LHE FALTE SAÚDE E PAZ!

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