sexta-feira, 15 de abril de 2011

Tu e as borboletas!

      Em meio à chuva de outubro, ele me vem como uma lembrança. É meu aniversário, e me pego a pensar onde eu estava a exatos dez anos atrás. Recordo logo aquele rosto: Os cabelos fartos e castanhos, os lábios carnudos, a face branca e com uns resquícios de acnes. Quinze anos completos, jeito espontâneo e sedutor. Eu tinha então treze anos apenas. Mas eu mentia para que nossas idades fossem iguais.

     Ele, como ensaiando o grande aventureiro que seria, sempre acabava apaixonado por outras meninas mais belas, e em busca de um conselho eu era a garota que bancaria o cupido. Eu, sempre solitária e observadora, me aproximei daquela amizade masculina, já que não havia empatia com as meninas de minha sala. Temia me apegar em demasia, me envolver platonicamente e sofrer, então, tentei como pude, manter uma certa distância entre nós. Tudo em vão.

    Cada dia mais unidos. Preocupação constante um com o outro: estudávamos juntos, e chegávamos e saímos do colégio juntos. Só que ele começava e terminava seus namoros, e eu permanecia só. Dividíamos opiniões em quase tudo: música, tv, cinema, sexo (!). Sim, sexo, por causa da TV e do cinema, o assunto chegou até nós, de uma forma sutil, obviamente. Afinal, tudo era novo em nosso mundo. Mas não foi o sexo que nos uniu, e sim as afinidades - entre elas, a nossa paixão por cinema. Lembro que quando saiu "Cidade dos Anjos", ele foi o primeiro a me contar a novidade.

   Nossa primeira briga... também lembro como aconteceu. Certa vez um outro colega de sala começou a demonstrar interesses pela minha pessoa. Meu amigo inseparável, por ciúmes ou por gozação mesmo, começou a velha brincadeira do "tá namorando". Lembro da chuva forte que caía quando cruzei o portão da escola decidida a ir atrás dele e fazer calar a brincadeira. Punhos cerrados, lábios entreabertos, pressionei-o contra o muro enquanto a chuva nos castigava. Cheguei bem perto... Coração acelerado, vontade de beijá-lo e de jogar pro alto toda aquela imagem de amiga. Hesitei demais. Não beijei. Deixei-o ali, e fui embora. Amizade encerrada.

  Passamos tempo sem trocar palavras, e com o fim do ano letivo chegando, a turma decidiu fazer um amigo oculto. Não recordo quem tirei. Lembro apenas dele ter dito claramente: "Só irei participar porque tirei alguém muito especial." Qual não foi minha surpresa ao ver que era eu a sorteada! O presente que ganhei foi um lindo par de brincos dourados, os quais usei até a exaustão. Reatamos a amizade, e o fim do ano chegou.

  Na festa de encerramento, eu estava sozinha quando ele se aproximou, deixando seu par de lado e me apertando contra a parede, como fiz com ele no dia da briga. Só que ele não estava magoado. Envolveu minha cintura docemente, disse ao pé do ouvido que jamais me vira tão linda, e que já estava na hora de mudarmos nossa história. Ele mudaria de colégio, ficaríamos distantes, e que com aquele sentimento dentro de nós, não poderia ser possível ficarmos negando, que era amor, que gostávamos um do outro... Que não nos beijássemos naquele instante.

  Não o beijei, e novamente o deixei ali.

  Foram longos anos até que nos reencontrássemos novamente. Até que quatro anos mais tarde nos reencontramos na faculdade. Foi uma longa tarde, falando de velhos tempos e de cada detalhe de nossa amizade. Ao fim da conversa, trocamos telefone. Nunca liguei. Ele idem. Até que um dia após acabar de ver o filme Efeito Borboleta, recebi uma ligação:
- Amber, acabei de ver Efeito Borboleta. Lembrei tanto de nós... Aquele filme parece com a gente. Nunca tivemos nada... E bem que poderíamos ter tido...
Desliguei sem palavras, as lágrimas desceram uma a uma. Stop crying your heart out ainda tocava no DVD...

 Lembra daquela tarde?
Oh, tu lembras...
em que o mundo parecia ter parado
no dia que a gente se separou
e foi lindo te rever!

O teu nome é pra mim
o mais doce dos segredos
e se guardo só em meus lábios
é para que ninguém te leve
de volta para o vazio sem você!

Eu era criança, tu eras criança
e nos amávamos sem saber o que era amar
e buscávamos um ao outro
sem saber que éramos nós mesmos nossa resposta
- Nossos desejos
bem que poderiam ser supridos
com nossas bocas a sós.

Mas a vida quis diferente, e cá estamos
- distantes e envergonhados como desconhecidos!

Eu pego na tua mão, e a solto logo
com medo de levá-la a meus lábios
e despejar sobre ela, ósculos e pranto
juras e afagos
de um passado que nunca houve!

E hoje, passo ao teu lado
e prefiro não te ver
pois tenho medo de não querer voltar
para a realidade onde jamais estivemos juntos!

Orquídea Marques. 

4 comentários:

Vivian disse...

Bom dia,Elton!!

Puxa! Triste quando se percebe que perdeu tempo...o pior é ficar se perguntando, será que teria sido bom,dado certo...as dúvidas!!
Gosto do jeito que escreves e nos coloca dentro da história...é inevitável torcer e se envolver com os personagens!!
Beijos pra ti!
Desculpe a demora!!

Rart og Grotesk disse...

que lindo!!mas é estranho isso, os dois sempre juntos antes e nunca tiveram nada, e o mais estranho ainda é que sabiam que gostavam um do outro.

obrigada pela visita em meu blog!
http://artegrotesca.blogspot.com

Marli Boldori disse...

Elton,sempre repito,como é bom ser poeta,quisera eu poder expressar tudo em palavras.O amor vem de maneiras inusitadas,ele está presente quando sentimos a necessidade de controlar algo incontrolável.Muito singelo o texto que nos pôe a imaginar como o amor é lindo seja ele como acontecer.Existem várias maneiras de amar e, em seu texto mostra-nos o amor de uma maneira linda,porém sofrida.Um grande abraço!

Nossos Encontros disse...

Li! que bom não ? li, entendi e não entendi, porém, "AMEI", o amor pelo amor. Será que as personagens, se protegiam do amor por medo de amar? talvéz defesa! quem não acredita no amor, dedica amor, distribue amor; só não acredita que é corespondido. Parabéns sou sua fâ.