sábado, 27 de agosto de 2011

Hades. V Capítulo.- O contra-ataque de Ariadne!

- Em 1 ano a vida do meu avô havia mudado drasticamente, ele conseguira com um pouco de dificuldade a dispensa da batina por parte do Vaticano, isso com muita lamentação por parte de seus superiores e amigos religiosos assim como do lado da sua família a qual era muito grande. Mudou-se logo depois da dispensa do sacerdócio católico para o Brasil, com a carta de recomendação de um amigo bispo seu conseguiu um emprego de professor de teologia em uma importante faculdade na grande cidade de São Paulo. Ele foi morar em uma pensão perto de onde trabalhava, um negócio montado por meu bisavô materno, sendo assim foi lá que o jovem ex- padre e naquela época atual professor universitário Antônio Manuel de Santa Cruz conheceu minha avó, a bela moçoila Catarina Vianne, posso lhe dizer em uma só palavra que foi amor a primeira vista. Tanto é que em poucos meses com a benção dos meus Bisavós e tios maternos eles se casaram.

            Meu avô diferentemente da dificuldade que teve com seus ex-confrades de batina, não a encontrou com sua nova família em convencê-los acerca da revelação divina feita através do Arcanjo Miguel. Minha avó, os meus bisavós e seus quatro cunhados, os meus tios, acreditaram prontamente em tudo que ele lhes contou acerca da aparição tanto em sonho quanto em oração do general angélico das milícias celestes de Deus. Eles eram muito católicos e de alguma forma a graça divina os convenceu da autenticidade da história do meu amado avô Antônio.

            A família toda em comum acordo e seguindo a inspiração do arcanjo divino, resolveram tornar realidade a tal Ordem Sagrada que o anjo em sua ultima aparição ao meu avô quando esse era ainda padre em Portugal, a ela se referira: a Ordem Sagrada dos cavalheiros iluminados do Arcanjo São Miguel. Ordem a qual meu avô fora introduzido em seu seio pelo próprio São Miguel que com sua espada o havia sagrado como o primeiro cavalheiro e membro dela.

            Além disso, como meu avô Antônio em seu ainda passado recente fora sacerdote católico e sendo dessa forma conhecia os ritos de exorcismo da milenar Igreja de Roma, coube a ele a tarefa de formar os meus bisavôs, minha avó a sua esposa e meus tios na aprendizagem em praticar e exercer tais ritos com sapiência e autoridade.

           Em sua ultima aparição ao meu avô o Arcanjo Miguel lhe fez importantes revelações. Com uma feição grave em seu rosto angelical ele lhe disse: - Assim que os membros da minha Ordem Sagrada estiverem prontos para a batalha devem imediatamente a ela se entregar meu fiel Antônio. Ariadne já há um bom tempo como você bem o sabe foi libertada dos abismos infernais por seus adeptos, e em sua forma humana esta se alimentando de inúmeras vidas inocentes devorando-lhes a carne e o sangue. Os demônios que com ela vieram do Hades esses não tomaram forma humana, isso não lhes foi necessário, pois se apossaram dos corpos dos sectários da rainha das trevas fazendo deles a sua morada, estes possuídos por esses espíritos imundos se tornaram semelhantemente a sua Senhora sombria, uns assassinos antropófagos. Em troca Ariadne lhes dá como eu mesmo já lhe disse muito poder, dinheiro e influencia política. Mais seguidores a cada dia se incorporam a tal seita diabólica desejando riquezas e poder inimagináveis, uma bossal ilusão do demônio para atrair mais adeptos, afinal o fim desse caminho funesto é a morte física seguida da morte espiritual. No entanto, os homens maus são capazes de vender a própria alma para conseguirem ganhar esse mundo e suas coisas, assim como dominá-lo com o intuito de tê-lo para si.

          E nesse caso como estão possuídos pelo principio do mal absoluto eles querem dominá-lo para ele. Então Antônio, Deus Nosso Senhor deseja com que você e meus cavalheiros impeçam com que Ariadne e seus seguidores possessos dominem o mundo. Apressem-se no treinamento de vocês e assim que o concluírem se lancem ao campo de batalha. Não aparecerei mais para você meu filho, terá que seguir as minhas inspirações em teu interior, como já te prometi eu nunca te abandonarei e sempre combaterei ao teu lado. Sendo deste modo deixarei contigo uma poderosa arma espiritual, a única que tem o poder de destruir a Ariadne e mandá-la para seu lugar de destino, o Hades. Essa arma deverá sobreviver às gerações de sua família meu fiel devoto, até que chegue o dia da batalha final. Pois como em Portugal eu lhe havia dito; o que você há de começar serão seus descendentes que terminarão em seu lugar!-, meu avô finalmente consegue entender que não seria ele e aquela primeira geração de sua família caçadora de demônios canibais que conseguiriam ainda dar fim a Ariadne e seus sequazes. Então o Arcanjo completa: - Tomai consigo meu livro sagrado, aquele que conseguir invocar a minha presença através dele diante de Ariadne conseguirá a sua aniquilação completa. Fique na paz e na graça do Senhor meu filho.

         Ao acabar de se despedir com essas palavras do meu avô o Arcanjo se desvanece como fumaça soprada pelo vento bem diante dos seus olhos. E milagrosamente um livro com uma capa dura de cor marrom tendo uma letra M em vermelho enorme gravada em sua frente, aparece junto aos joelhos do meu avô, que naquele momento rezava ajoelhado diante o altar de São Miguel que ele e minha avó haviam erguido em sua casa.

       Assim que o treinamento intensivo aos exorcistas terminou dado pelo meu avô, a Sagrada Ordem de São Miguel ganhou o campo de batalha. Eles começaram a caçar e exorcizar os endemoninhados seguidores da rainha das trevas em todo canto do mundo, com a intenção de se achegar até ela finalmente e destruí-la com o poder do livro do divino arcanjo. Mas Ariadne vivia muito bem cercada e protegida por seus sectários, sempre se safando quando perseguida pelos seus inimigos. Com isso os anos iam se passando, a primeira geração de exorcistas se foi. A segunda formada por meus pais e seus irmãos assim como seus primos se levantou para substituí-los, esses também não conseguiram por as mãos no demônio canibal alado. Desta forma ficando para a geração a qual eu e meus irmãos e meus primos fazemos parte que é a terceira geração de caçadores de demônios da família, a responsabilidade de terminar o que aqueles que vieram antes de nós começaram.

- É e me parece meu amigo exorcista que hoje você terá uma boa oportunidade de realizar isso. Agora eu que não tenho nada haver com essa loucura toda é que não tinha que estar aqui e presenciar tudo isso.

     Rindo ironicamente, Jardel responde a lamentação de Cássio:- A partir do momento que seus passos cruzaram o caminho de Ariadne, com certeza você tornou-se parte importante dessa história tétrica, assim como todas as outras vitimas do passado e presente dela e de sua seita demoníaca. Então me acredite, agora você tem tudo haver com essa situação trevosa e desesperadora em que nos encontramos.

    Coçando a cabeça e olhando de forma intrigada para Jardel, Cássio lhe pergunta:- Vem cá, se vocês são uma Ordem sagrada de exorcistas, então agem em grupo, como você tem a triste idéia de aparecer aqui sozinho para enfrentar essa mulher filha do diabo, cadê seus companheiros de oficio, precisamos de ajuda, cadê a cavalaria?

    Jardel dá um suspiro de inconformismo e acaricia com a mão livre o cano de seu rifle, enquanto responde a oportuna pergunta do homem que ele acabou de salvar:- Não vim sozinho amigo, apesar de ser um legitimo neto de Antonio Manuel de Santa Cruz e sendo assim não temer as forças do mal, não sou tão imprudente e tão burro para agir sozinho, afinal não subestimar as forças do inferno foi uma das primeiras lições que eu aprendi no meu treinamento de exorcista. Nunca agimos solitariamente. Sempre entramos em ação de dois em dois ou de quatro em quatro no máximo. Eu vim com meu primo, ele chama-se Aleksander, desde o dia em que você se encontrou com Ariadne naquela balada nós dois estamos de olho em cada passo dado pelos seus pés. Era para nós dois termos pegado essa maldita aquela mesma noite, mas de alguma forma ela percebeu que estávamos rondando aquele perímetro, e deu um jeito de se safar de lá. Então deduzimos que ela se voltaria a você mais cedo ou mais tarde, para terminar o serviço que havia começado naquela noite, então só era uma questão de segui-lo até que isso acontecesse como acabou acontecendo hoje. Eu e Aleksander estamos na cola de vocês dois desde que partiram daquele café na Avenida principal da cidade e vieram para cá. Quando chegamos aqui, desci do nosso carro bem no ponto onde fica o portão de entrada desse parque desolado, logo depois que você e Ariadne entraram por ele, eu entrei atrás os seguindo, enquanto isso, meu primo foi dar a volta no parque com o veículo para ver se encontrava uma outra entrada para poder penetrar em seu interior,assim poderíamos cercar Ariadne em duas posições diferentes e efetuar com isso um ataque surpresa.

- Ah então foi isso. Quando eu e Ariadne descemos juntos do meu carro assim que chegamos junto ao portão de entrada desse lugar infernal, tive a impressão de ter ouvido o ronco do motor de um outro veículo se aproximando. Até cheguei a comentar isso com ela, mas eu acho que a sua fome em me devorar era tanta que, aquela maldita nem quis averiguar com seus sentidos aguçados de predadora das trevas se minha impressão condizia com a verdade ou não.

  E lembrando-se da comentada estratégia de ataque usada por Jardel e seu primo, Cássio balançando a cabeça negativamente por não achá-la muito boa, dirigindo um olhar com uma expressão irônica para o caçador de demônios, pergunta-lhe: - Está bem Jardel, e onde foi parar seu querido primo que não apareceu como um homem de apoio a você até agora?-, olhando para os lados como se estivesse procurando algo ou alguém, o caçador de demônios responde a pergunta de Cássio, dizendo-lhe:- Sinceramente eu não sei onde aquele cara foi parar amigo, antes de te arrancar das garras de Ariadne tentei entrar em contato com ele uma três vezes pelo meu celular e não consegui tal intento. Esse parque abandonado é enorme, mas não o suficiente para que um soldado da luz experiente como Aleksander possa se perder. Deve ter ocorrido algo de inesperado com este meu primo.

- Uma coisa eu não entendo Jardel. Se antigamente como você mesmo me disse, Ariadne andava cercada por seus seguidores que procuravam protegê-la do ataque súbito dos membros de sua Ordem sagrada, porque hoje ela esta só, sem ninguém a acompanhá-la, alias desde que a conheci naquela danceteria ela me parece sempre andar sozinha, cadê o pessoal que a protege?

- De uns tempos para cá, notamos que feito uma criança mimada que deseja mostrar auto-suficiência a quem cuida dela, Ariadne em alguns momentos tem dispensado a proteção de seus sectários para caçar sozinha. E isso muito a contragosto deles, que temem perder com isso em um ataque súbito nosso a ela, a sua rainha e deusa, no entanto, como não há modo de desafiar a sua vontade, os integrantes da seita demoníaca às vezes permitem que o demônio canibal ande sozinho. Mais uma vez, como em sua queda do paraíso celestial, o demônio com sua arrogância e prepotência quer mostrar que é o todo poderoso, que pode dar passos maiores que suas próprias pernas sejam realmente capazes de dar. Hoje nessa noite poderá ser de novo essa mesma razão que o fará cair pela segunda vez em grande desgraça, caindo e morrendo em nossas mãos. Com isso se cumprirá com a missão que o santo Arcanjo do Senhor concedeu a meu avô e a nós seus descendentes para que a cumpríssemos.

  Após ouvir a resposta de Jardel, Cássio olha a sua volta como que estudando aquele cenário que mais parecia um de filme de terror, como era o caso daquele parque desértico com sua vegetação profícua e que podia ser vista para onde quer que nele se olhe. Então finalmente como que chegando a uma conclusão sobre a analise visual que fizera do cenário que os cercavam, ele finalmente diz:- Aquele demônio dos infernos sem vergonha me enganou direitinho, eu pensei que ela havia dispensando o conforto e luxo do meu apartamento para vir transar aqui nesse verdadeiro matagal, porque era uma fantasia sexual sua, ao menos essa foi a idéia que essa maldita quis me passar, mas agora eu entendo tudo, matar-me em um condomínio onde eu moro e onde meus vizinhos poderiam ouvir meus gritos chamaria muita atenção, enquanto que nesse lugar abandonado ninguém veria ou ouviria nada!Ela não teria com que se preocupar sendo assim.

- Bela conclusão Cássio, quando Ariadne não tem a comodidade de que sua comida por assim dizer venha até ela trazida pelas mãos de seus seguidores, ela quando sai para caçar ouvindo as vozes vorazes de seus extintos de caçadora demoníaca, a mulher demônio costuma escolher lugares desérticos como este para atrair, atacar e devorar suas vitimas inocentes. Tenha certeza que já era intenção dela na noite em que vocês se conheceram naquela danceteria atraí-lo para cá, usando essa desculpa esfarrapada que desejava realizar sua fantasia sexual de trepar em um lugar exótico e desolado como esse.

- Sim, e Ariadne só não o fez porque como você mesmo já me explicou, ela sentiu a presença de vocês exorcistas rondando aquela área em especifico com a intenção de pegá-la no pulo do gato!

- Exatamente meu caro amigo.

- Ah e muito legal isso de vocês malditos exorcistas me usarem como boi de piranha, eu agradeceria se tivesse sido avisado em que enrascada eu estaria me metendo!

  Com uma expressão facial e um tom de voz que exprimiam a ironia, Jardel responde-lhe:- Ah sim, seria muito fácil para mim e meu primo chegar a um sujeito que nunca vimos na vida sendo que também seríamos completos estranhos para ele, dizer-lhe o seguinte: Olha esta vendo esta gostosa com quem você esta louco para sair e trepar? Pois bem, não faça isso. Ela é a rainha do próprio inferno que foi trazida a esse mundo direto dele. Isso com o intuito de dominá-lo e mergulhá-lo num mar de morte e muito sangue, afinal ela e seus seguidores comem carne humana, inclusive temos um aviso para lhe dar, ela deseja fazer da sua carne em especifico, o jantar dela de logo mais a noite. Acho que você meu caro, não acreditaria numa só palavra nossa e nos expulsaria chamando-nos de loucos e drogados.

  Cássio tendo de concordar com a afirmação de Jardel suspira inconformado. Afinal se não tivesse presenciado com seus próprios olhos o que até agora naquela sinistra noite já presenciara, ele mesmo não acreditaria naquele tipo de coisa como demônios canibais vindo direto do Hades e em seus caçadores. Exorcistas leigos que faziam parte de uma Ordem Sagrada comandada por um ex-padre português chamado Antônio Manuel e um personagem mítico que vinha da mitologia judaico-cristã, o próprio Arcanjo São Miguel.

- Se nem os príncipes eclesiásticos da Igreja Católica acreditaram no meu avô naquela época e até hoje ainda insistem em não acreditar, você acha que um homem dos tempos modernos e de sentimento cético como é o seu caso, acreditaria em nós, Cássio?-Pergunta-lhe Jardel olhando agora de forma séria a Cássio, abandonando toda expressão de ironia que havia em seu rosto e no timbre de sua voz minutos atrás.

 A resposta não podia ser outra:- É.. você tem toda a razão meu caro, eu não acreditaria em uma só palavra do aviso de vocês dois.

 De repente o diálogo dos dois jovens rapazes é interrompido bruscamente por um som sutil, algo que pareceu cortar o ar frio da noite, a sutileza daquele ruído é seguida por um grito de dor de Cássio, pois do alto, uma flecha com fogo em sua ponta havia descido e penetrado fundo em seu joelho direito. Ele berra então a plenos pulmões:- Ahhhhhhhhhhhh....que coisa maldita é essa?Por Deus me ajudemmm....

 Por frações de segundos, Jardel entende o que ocorrera: “A maldita reiniciou o seu ataque, ela esta recuperada”.

 Após essa sua terrível compreensão, tudo acontece muito rápido para que aquele jovem caçador de demônios possa fazer algo para impedir. Ariadne feito um anjo negro surge inesperadamente de dentro da copa frondosa da arvore em que Cássio se encontrava encostado, e com uma velocidade e agilidade impressionantes, quase impossível do olho humano acompanhar, ela desce sobre ele arrebatando-o consigo, sumindo com o jovem rapaz ao alçar vôo, assim que suas mãos o agarram firmemente.

 Jardel se levanta do chão desesperado e começa a atirar com seu rifle calibre doze para o alto, na direção em que ele achava que Ariadne ao levantar vôo, havia sumido com Cássio.

 Alguns poucos segundos depois em que cessa de atirar no escuro, ele acima da sua cabeça parece ouvir gritos de alguém, e pareciam estes pertencerem ao pobre Cássio, logo os gritos cessam e o que seus ouvidos atônitos ouvem agora parece ser o som de algo semelhante a um quebrar de ossos.

 Então o inesperado e o horripilante se materializam diante dos seus olhos esbugalhados. Do alto, do escuro e de uma das copas das arvores ele vê cair ao chão, bem próximo de si, um esqueleto humano vestido em farrapos, que tem seus ossos espatifados e esmigalhados com a violência brutal com que se chocam a terra ao serem jogados ao chão.

 Ele rapidamente constata para sua própria dor e frustração que aquele esqueleto era do pobre e miserável do Cássio que naqueles poucos instantes havia sido devorado vorazmente por Ariadne.

“Maldita seja”!- pensou consigo mesmo Jardel, ao contemplar tal cena degradante.

 Subitamente ele ouve uma voz feminina demoníaca ao mesmo tempo em que sarcástica, que parece vir de algum ponto acima de sua cabeça, no alto, no breu na altura das altas copas daquelas seis arvores onde ele e Cássio haviam corrido para abrigar-se do ataque voraz de Ariadne. A voz dizia-lhe:- Agora só sou eu e você meu tesudo loiro, vamos brincar de fazer neném?

 Sem responder aquele sarcasmo diabólico de Ariadne, Jardel se vira e sai daquele esconderijo que a essa altura não era tão seguro assim para ser considerado um esconderijo de proteção contra o ataque da rainha das sombras.

 Aliás, ele da forma mais tétrica e dolorosa que pode haver, chegara rapidamente a conclusão com aquele ultimo ataque que sofrera resultando na morte inesperada de Cássio, que não havia lugar seguro em todo aquele parque abandonado e coberto por aquela teimosa neblina onde pudesse se esconder das garras homicidas daquela arqui-rival trevosa de sua família a bem exatos três gerações dela.

 Então se fosse para enfrentar a morte que lhe estava tão certa naquele instante como dois e dois são quatro, morreria lutando com dignidade, em campo aberto, sem estar escondido como um garotinho assustado, morrendo de medo de ser pego pelo bicho papão. Afinal ele era neto de Antonio Manuel de Santa Cruz, que havia sido o primeiro grande cavaleiro da Ordem Sagrada dos iluminados de São Miguel, sagrado pela espada do próprio glorioso Arcanjo, erguido para formar um exercito de luz para combater as forças do mal. E nunca soubera pelas histórias que sempre ouvia de seus pais e tios, que seu nobre avô fugira covardemente de uma boa luta contra Ariadne e seus sequazes. E não seria ele Jardel, seu neto, que traria essa vergonha e desonra de fugir a luta a alma honrada desse seu avô. Se Ariadne queria um embate, ah sim, então ele daria isso a ela.

 Ganhando o campo aberto desejado fora da proteção das arvores, Jardel empunha o seu rifle calibre doze, estático em meio a neblina esbranquiçada que permeia o cenário verdejante e escuro daquele parque abandonado por Deus e seus anjos, no entanto, tornado agora pelo diabo seu campo de batalha contra as forças do bem.

 O coração de Jardel bate acelerado parecendo querer sair de sua boca enquanto espera o surgimento do anjo negro arqueiro que tinha se tornado Ariadne. Nunca antes estivera em uma situação assustadora como aquela, já havia enfrentado Ariadne e seus discípulos muitas vezes antes, mas em nenhuma dessas oportunidades numa circunstância igual a que se encontrava naquele instante, tendo que praticamente encará-la sozinho, sem a companhia e o apoio armado de seus familiares que como ele eram os combatentes das forças contrárias aos da luz.

 Jardel não tem que esperar muito, Ariadne de forma assustadora reaparece surgindo no alto, em um ponto do embranquecimento da névoa onde esta aparece. Ela desce vagarosamente, suavemente, simplesmente levitando com graça, desafiando as leis gravitacionais da física, como se seu corpo não tivesse peso algum dentro da atmosfera terrestre.

 No entanto ela ressurge majestosamente terrível, como um Ícaro de alma negra em sua versão feminina, com suas asas escuras bem abertas. Ela vem descendo na direção de seu arquiinimigo até que tal movimento de descida é interrompido, e então a criatura simplesmente fica estática, planando em um determinado ponto do espaço vazio, a poucos metros de altura acima de onde Jardel se encontrava com seus pés bem plantados no chão de grama verdejante.

 Ariadne segura com suas mãos seu grande arco de madeira de cor negra, em suas costas carrega um alforje cheio de flechas. Homem e demônio ficam alguns minutos em silencio apenas procurando se contemplar mutuamente. A tensão do momento parece envolver o interior de ambos. Eles já se conhecem a alguns bons anos dentro do campo de batalha, sabem que um como inimigo é páreo para o outro, apesar do medo para com o seu adversário não existir em seus corações, isso não faz com que não haja um respeito mutuo entre os dois. Sendo assim, Ariadne e Jardel sabem que seria um terrível erro de parte a parte haver uma subestimação em relação ao inimigo. Um erro que poderia ser fatal para um dos dois lados que o cometessem.

 Olhando para Jardel com uma expressão facial séria e grave, Ariadne agora não usa uma linguagem sarcástica para lhe dirigir a palavra, ela então com uma voz de timbre sinistro diz-lhe: - Finalmente consigo enfrentá-lo com você estando sozinho, sem ter a proteção de seus familiares e amigos exorcistas, principalmente tentando usar os poderes daquele livro sagrado contra mim!

- Você desde o tempo do meu avô sempre arrumou um jeito de escapar das mãos de nossa Ordem Sagrada. Mesmo todas as vezes que sabíamos que em um determinado lugar você se encontrava e íamos lá atacá-la, levando conosco o livro sagrado de São Miguel, com suas artimanhas ardilosas conseguia então se safar incólume do nosso ataque. Pois nunca houve tempo hábil no meio dos combates entre seus seguidores e os de nossa Ordem em usá-lo contra a sua energia maléfica. Mais nós os cavaleiros do Arcanjo Sagrado nunca perdemos a fé de que um dia conseguiríamos usá-lo contra você. E esse dia chegará. Deus todo poderoso nos dará a condição de que em um determinado combate, o livro possa ser usado para destruí-la, enviando-a para o lugar de onde nunca deveria ter saído demônio maldito, para as profundezas do Hades.

 Ariadne franzi a sua testa, mesmo sabedora da valentia e coragem ferrenhas de Jardel, se surpreende ao constatar que ele as mantêm, mesmo agora quando se vê sozinho,sem o amparo de seus confrades caçadores de demônios e sem ter o livro sagrado com ele para poder mais eficazmente enfrentá-la. Pois se o livro estivesse com Jardel, ele já teria horas atrás tentado usá-lo contra ela, invés de fugir com Cássio como fugiu indo abrigar-se atrás de uma daquelas seis arvores que estavam plantadas lado a lado, como ambos fizeram.

- Como pôde vir me enfrentar sem o livro místico do príncipe da milícia celeste, Jardel?Achava mesmo que com um mero rifle poderia me destruir?Creio que não, você apesar de muito jovem é sábio e experiente o bastante na área de combater demônios, para saber que armas de fogo só nos retardam temporariamente, machucando-nos com ferimentos que seria mortal a um relés ser humano, mas não para nós criaturas das trevas que precisamos apenas de um certo tempo para nos recuperar deles e conseguir a sua definitiva cicatrização.

 E estendendo a sua mão restaurada que fora destruída anteriormente pelo tiro que recebera do rifle de Jardel, desdenhosamente Ariadne pergunta-lhe:- Gostou da minha nova mão meu caro?É impressionante como a genética de um demônio tem um poder de auto-cura e auto-restauração tão impressionantes, não acha?

 Em resposta Jardel direciona o cano do seu rifle calibre doze na direção de Ariadne e apenas lhe responde:- Nada que venha do poder de Satã me impressiona ou causa inveja, você pode ter conseguido esses anos todos em que anda pela terra derramando sangue inocente se safar temporariamente da justiça divina, e com isso continuou a derramar mais e mais desse mesmo sangue, mas isso porque ela mesma assim o quis, isso para punir os homens que não quiserem acreditar na palavra do santo Arcanjo manifesta pela boca do meu avô tempos atrás. Mas sinto que hoje chegou o seu dia de acertar suas contas com Deus, demônio sórdido do inferno!

 Ao concluir essas suas palavras, Jardel dispara um tiro, após deflagrar a primeira cápsula procedente do cano de sua arma, ele dispara pela segunda vez, a segunda cápsula é descartada passando por cima do seu ombro, indo projetar-se ás suas costas caindo ao chão.

Continua...

ELTON SIPIÃO O ANJO DAS LETRAS.

Nenhum comentário: