Google Translate

O afeto que lhe resta II.*

domingo, 9 de outubro de 2011.

            Chegara ali sem esperança. No começo, a vontade de dar um fim a tudo. O beco, uma caverna de cegos bêbados.

            Enrolado na coberta vermelha, o Zé fedido. Bebia e se drogava. O mais miserável. Todos perderam a confiança nele. Roubava na cara do lesado. Mas não era rápido o suficiente. Este o motivo das cicatrizes.
Quando batiam, não tinham dó. Um modo de compensar a invisibilidade.

           Do seu lado, um cachorro. O Bin Laden. Ele gostava de brincar com ela. Gozava em sua perna direita. Era a perna que ele gostava. Mas chinchava um pouco a esquerda. As pernas eram as suas torres gêmeas.

           Ela encarava o mendigo bicha, com piedade. Fora queimado pela metade num dia de natal. Vaidoso, ficou dias sem se cuidar, após o incidente. Todos tinham de ficar de olho nele. Então, começara a falar sozinho. E a andar nu. Quase o queimaram novamente.
O maluco dorme afastado de todos. Tem um bonequinho que vive com a boca aberta.

          Quando esta apertado, enfia o negócio dele no boneco e mija dentro. Quando está excitado, a mesma coisa. Fica uns vinte minutos num movimento de ir e vir. Durante o dia, anda descalço pela rua, segurando a calça pra não cair.

           Ela tem saudade do velho. Era tão bom. Já teve filho, tinha emprego em escola e era muito culto. Um dia sumiu. Procurou ele em todo lugar. Era gostoso ouvir suas histórias. Com ele, aprendera a fala La Fontaine. Ela gostava de fazer-lhe carinhos. Segundo ele, a única que conseguia erigir o seu edifício.

          Um dia, ele a levara perto do Museu da Biblioteca e descreveu pra ela tudo que tinha lá dentro. Nem precisou entrar. Ela fechou os olhos e imaginou.
Por onde ele andará?Terá voltado para casa?A Assistente social o terá ajudado?Ele também a ajudava a cuidar dos carros de frente ao Paço.

          Bin Laden acorda, língua estendida e pingando. Vai em direção ás suas torres gêmeas. Ela descobre as pernas finas até em cima. Sabe que é o afeto que lhe resta.

NATANAEL GOMES DE ALENCAR.

*Texto que faz parte do livro de contos eróticos que tem o titulo de “O afeto que lhe resta”, escrito por Natanael Gomes de Alencar, lançado e publicado neste ano de 2011, pela editora santista Sereia Cantadora. O editor de Natanael neste lançamento e publicação dessa sua obra literária foi o Ademir Demarchi.

Comentários:

TEXTOS E CRÔNICAS DO ANJO DAS LETRAS. © Copyright 2007 - 2017 | Design By Gothic Darkness | Editado por Lizza Bathory