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As estações do poeta!!!

quarta-feira, 29 de maio de 2013.
O poeta enlouquece com o batuque do maracatu.

       Para qualquer parte que meus olhos se voltem, estarão sobre o corpo de um amigo bêbado na Rua 24 de maio.
A Rua 24 de maio é uma zona de bares e puteiros, onde a cada dia é decepada a cabeça de um poeta ou de um louco.

       O amigo bêbado é um grande palhaço. Suas calças vermelhas, esfiapadas nas bainhas, são como bandeiras desbotadas que as águias disputam sobre os tetos destampados dos abismos. Ele agora dança, assovia e talvez cante. Seus cabelos molhados de suor caem-lhe sobre os olhos inchados de vinho. A camisa está enrodilhada na cintura, porque o suor que lhe escorre do peito é frio como o suor de um agonizante.

       Ele dançará ininterruptamente, até que a aurora se desenhe ante seus olhos como um pássaro carregado de sangue.Todos os blocos já passaram.

       Já passaram todos os ritmos do corpo do vingador. Só ele continuará dançando como um palhaço louco, marchando como um conquistador para o pelourinho, onde a cada dia jaz, irremediavelmente, a cabeça decepada de um poeta ou de um louco.

O Poeta dança na rua deserta.

      O poeta disse ao seu melhor amigo: “hoje, beberei todo o vinho dos bares desta rua, aspirarei sobre este lenço branco o conteúdo deste frasco de éter, ficarei leve como um dançarino, não sentirei sob os pés os paralelepípedos nem as mordidas dos morcegos que acompanharão meu bailado noturno, nem ouvirei os ritmos dos pés pranchados do vingador. Quando os ritmos do corpo do vingador se apagarem, então já terei me suicidado à sombra do pelourinho, onde a cada dia jaz, irremediavelmente, a cabeça decepada de um poeta ou de um louco.”

      Então, aí, o pobre louco compreendeu que nada mais lhe restava senão um pouco de urina e sal em seu café, e alguns pelos de ratos esparsos no fundo do quintal.

 O poeta dança para os morcegos

      Como se já pesasse demasiado, sobre a cidade deserta de agonia e silencio, o poeta acocorou-se e mijou todo o vinho que lhe passava na cabeça. Depois ficou triste, dizendo para si mesmo: “ agora, que estou leve como uma pluma e tenho as molas do corpo liquidas, poderia dançar até apagarem-se no deserto do céu as ultimas estrelas. Mas não vejo nenhum espectador, nenhum vagabundo, nenhum demente que ouça os ritmos dos meus passos.” Nisso, um formidável morcego caiu tremendo aos pés do poeta louco. Outro o sucedeu. E mais outro. Daí em diante, uma nuvem cinzenta revoava sobre a cabeça dele.

      E o poeta continuou a dançar para os morcegos que, cansados de voar, ancoraram-se ao fio da calçada e adormeceram.

O Poeta dança para os gatos.
     Vendo que os morcegos dormiam, o poeta ficou furioso e atirou-lhes os últimos dentes que lhe restavam. E, como eles continuavam a dormir, apanhou um por um e os sufocou debaixo dos sovacos.

      Nesse momento, os trinta e sete gatos, que habitam os telhados limosos da Rua 24 de maio, foram atraídos pelo cheiro ácido do sangue dos morcegos massacrados e rodearam o poeta, que tinha agora as mãos trançadas sobre a cabeça. E o louco poeta começa a dança para os gatos que assistiam, visivelmente comovidos e silenciosos.

O Poeta dança para si mesmo e para sua morte.

      Como se da garganta do poeta escapasse um grito sem que ele se apercebesse, os gatos se precipitaram para os telhados e logo caíram fulminados. Então, aí, o poeta resolveu tirar a roupa, descalçar os pés, e dançar para si mesmo e para a sua morte. Mas, acontece que a aurora já vinha rompendo e uma leve brisa, que exalava das águas mornas do Rio Ceará, começou a acariciar seu rosto macilento, que lhe fez lembrar, alucinado, as mãos de lírios da irmã morta.

      Então, curvou-se até que seu corpo tomasse a semelhança de um arco, depois a forma de um anel, até que sua espinha se partisse.

Fim da tragédia.

      Um corvo, que devorava as entranhas do cadáver de uma criança, sobre um caixote de lixo, abandonou sua comida e veio, capengando, acocorar-se sobre o monte de gatos mortos. Então, crocitou uma ária; arrastou-se até os morcegos, revirou-os com o bico e as unhas, e cheirou-os um por um. Feito isto, foi até o corpo do poeta e depois de examiná-lo minuciosamente, amaldiçoou-o e amputou-lhe as pernas e os braços. Nesse momento, um cachorro doente mordia um aleijado bêbado que se debatia numa poça de um dos buracos da rua do hospício. Um porco china, que um empresário de circo vendera ao mascate do Beco do Carmo, partiu com um ronco vermelho a corrente que o prendia e atou ao rabo o fantasma de um anão que se apaixonou por um manequim. Atrás dele, desfilou um cortejo de jacarés sonâmbulos que há séculos viviam encantados nas águas barrentas do Rio Ceará.

      Um pobre de cristo, que dera de esmola tudo o que possuía, comia, agora, as próprias falanges dos dedos, assim como as dos filhos. Observando isto, um tico-tico amestrado, que tocava violino na noite fantasmagórica, deu o alarme. Mas, graças à pericia de um sacerdote, que naquele momento atentava contra a castidade de uma virgem, conseguiu-se dar fim à tragédia do poeta bêbado da Rua 24 de maio, que, segundo espalharam por aí, ameaçava destruir o mundo.

 Agora, O canto.

      Ó meus amigos (disse então o poeta depois que ressuscitou)! Eu adormecera logo após o almoço e, como de ordinário me acontece, sonhei coisas esquisitas: mortos, fantasmas e etc.
Ó os mortos! Os mortos que são irremediavelmente esquecidos, mesmo quando a todo o momento os evocamos!
Ó os fantasmas! Os fantasmas que todos nós somos, vivos e inúteis, ou eternamente mortos e dissecados.

      Estou sempre com minha própria carne insatisfeita. Às vezes, acredito-me sepultado e redivivo. Ora, eu tenho passado a vida em meu outro, sou ao mesmo tempo um homem e um monstro, um Deus e um demônio. Sou como o vento da caverna, percorrido e sentido por todos e nunca ali desabafando, percorrendo e sentindo.

      Tal um Deus, daqui somente escuto o perpassar dos anos.
E é sob o enigma de mim, pleno de mistérios, que procuro num passado de sono recriar-me.

      Imutável, estou sempre a me inspirar, num silêncio maior que o de aves em refugio certo, e prestes a me atirar ao mar mais solitário, sob as nuvens da noite.
Em verdade, sou tão somente eu mesmo, que ao alheio que abrigo em mim não dou nenhum proveito.

      Vivo sempre num profundo e eterno desconforto. O saber ver-me seria gloria. Mas o que desprendo de luz e som é impessoal e poroso, como uma raiz, uma chaga, um pouco de húmus e um pouco de vinagre.
Nunca morrerei em minha sombra e em minha luz. Sou o diuturno momento de solidão e tédio. O impossível de estar disforme.

      Às vezes, sinto meus cabelos crescerem horrivelmente, tal os cabelos do louco Antônio conselheiro. Tenho a impressão de que o tempo está se evadindo pelos dedos. É impossível deter a fuga do tempo. Sou como o hálito inconsolável de Deus fluindo do gesto incognoscível das rosas.

      Pássaro inexorável, oculto e presente como a musica, sou inútil, no entanto, para a vida dos objetos.
Embalde, procuro na origem das coisas o fim que é seu próprio principio.

      Desconheço a tarde que se afoga no mar e incendeia as montanhas.
Vejo apenas a Tarde que cai dos sapatos dos homens e os envelhecem.

- LEONARDO SÓ. - O POETA CLANDESTINO. 

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