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Epopeia de Miro!!! - (Nova Versão).

sábado, 27 de julho de 2013.
    ...Está uma noite fria. Fria para pinguins. De um frio siberiano. Miro caminha até o Bar do Cláudio, próximo ao do Martam, ali na Avenida das Nações Unidas, quase em frente daquela pizzaria…perdoem, esqueci o nome.
Enquanto anda, as pessoas o observam e comentam. Ele não liga. Que pensem dele o que quiserem. Não deve nada a ninguém.

     Quando mais moço, exercia de maneira explosiva sua bissexualidade. Saía com meninos e meninas. Mesmo aos quarenta, gostava de menininhos cerca de vinte anos mais novos. Como tinha experiência e era versado em futebol, conhecedor da história dos clubes, as suas opiniões, charme e certo cinismo vital eram um chamariz para os mais novos. Particularmente, os da mesma tendência dele. Através da alma, chegava aos corpos e os devorava com método de joalheiro.

     Um vício que o fazia cair era o do velho barra. Bebia, acreditava-se, desde a mamadeira.

     Miro era sedutor até os cinquenta. Depois, as rugas foram se estabelecendo no relevo do corpo, junto a manchas e à fraqueza orgânica resultante das várias noites de orgia.
Os amantes jovens de antes amadureceram e partiram pra caminhos diversos. Muitos tornaram-se pais de família de reputação “ilibada”. Os de hoje tem ojeriza por Miro. Ele já esperava por isso. Nunca fora inocente sobre as metamorfoses que o tempo fazia à vida.

     Casara umas três vezes. Seus filhos estavam crescidos. Dava-se bem com as ex. Com os filhos mais ou menos.
Miro é um cara de mais ou menos sessenta anos. No entanto, possui um andar ligeiro. Magro e irrequieto, gosta de andar sem eira nem beira pela cidade. Andar miudinho. Cabeça sempre no alto, a afrontar invisíveis e visíveis contestadores.

     Ainda, um sorriso contido, vergonha de mostrar os dentes estragados. O hábito que o distingue é o de passar a língua nos lábios.
Vestido à moda clássica, com roupas velhas. Cada um tem seu conceito de moda clássica, não é? Só o sapato de duas cores está tinindo.

     Em seu rosto, sinais de lágrimas que fluíram, rios que surgiram de súbito e alagaram rugas nas quais o tempo trabalhava, com lentidão, afiando o gume de sua faca pungente..

     Miro fica indeciso, olha e acaba entrando no bar do Cláudio.
Miro senta em uma mesinha da entrada. Procura quem possa atendê-lo, girando seus olhos pequenos e negros. Constata que é cedo pelos poucos que àquela hora ali se encontram. Aqueles bares começam a encher tarde da noite e ficam abertos até zero horas ou duas da madruga.

     Os frequentadores costumam lotar todas as cadeiras, dentro e fora. Em cima de um deles, mora um anjo feminino e musical, alheio aos bares, que, por vezes, reage, inconformada com o cheiro nauseante da fumaça de baixo e chama a polícia. Bom saber que ela existe ali. Uma beleza encerrada em seu castelo. Uma esperança pra um desejo de pureza. Uma maestrina, conhecedora de harmonias e melodias e ritmos. Deixêmo-la ali. Torçamos para que a fumaça de mais tarde nos deixe vê-la ao celular, no recorte da janela. Só assim podemos saber de sua existência e acreditar na música das janelas.

     Costumam frequentar o Cláudio’s Bar gente da mais variada. Entre este bar e o do Martam do outro lado, ficam as tribos mais diversas, a maior parte composta de jovens inconformados com as paredes e grades das convenções.
Há roqueiros, gente de teatro, adoradores de Mozart, Brahms, música renascentista, de samba, funk, presepeiros, torcedores do São Paulo, do Coríntians, do Santos, homens que amam mulheres, outros que amam homens, ainda mulheres que curtem mulheres, e muito cigarro, das mais diversas marcas. A regra dos donos dos bares é: fumem longe, não dentro do meu estabelecimento.

     Todos são muito bem recebidos, todos se entendem, todos se abraçam, choram nos ombros uns dos outros, riem, gargalham, e vão esquecendo as agulhadas do dia. Ali são combinados movimentos, ações, reações, encontros, desencontros, etc.

     Miro repara no relógio. São vinte e duas horas. Caramba, ficara ali um tempo enorme e nada pedira. Não fora notado. Aqueles dias estavam tumultuados. A cidade em polvorosa por causa das passeatas civis. Devia ser por isso que o Cláudio estava tenso e não o vira.

     As pessoas começavam a chegar. Logo, os bares do Cláudio e do Martam estariam chapados. Observou dois homens que chegaram e sentaram próximas a uma mureta. Parece que tiraram textos de suas bolsas. Seriam doidos, ou escritores, ou atores? Tudo dava no mesmo. Um era careca de todo. Detesto carecas, pensou Miro. O outro cabeludo em demasia. Adoro cabeludos, repensou Miro.

    Miro saiu dali sem pedir nada. Queria um bar menos movimentado e mais fuleiro. Tinha vontade de chafurdar na lama. Encher a cara com bebidas estragadas, de marcas discutíveis. Ali não dava pra ele.
Miro saiu a procurar destino para os lados da Vila Natal. Lembrou do Bar da Maluca, logo no início do bairro. Era para lá que iria. Decidiu.

    Ao chegar perto do bar, enxergou um bêbado sendo surrado e roubado. Reconheceu a vítima. Era o Tico, um colega seu que fora da polícia rodoviária.
Conhecera ele quando o mesmo se casara com a Tonha, moça muito culta e muito apreciada no meio cultural.
Ninguém entendia por que ela gostara dele, que já aprontava das suas quando se conheceram. Tico já era viciado. Só se foi o amor pelo rock. Nisso, ambos eram cúmplices. Devido ao vício, porém, era questão de tempo ele ser expulso da corporação rodoviária.

    Quando isso ocorreu, Tonha o largou. E ele começou a beber mais. A imitar Janis Joplin, Morrison, fazer vergonha com seu comportamento de amante do rock.
Miro espera Tico ir embora todo em sangue. Fica sem entender como, depois de tanto chute, ainda estava vivo.

    Ao entrar no bar, percebe que há gente nova. Faz tempo que não passeava para aqueles lados.
Uma puta – nome de guerra: Maria - coça a bunda com a maior desfaçatez. Está na mesa com um cara bêbado chamado Pi Canalha, irmão bastardo do Velho Safado, que, inclusive já estava bebendo com os anjos caídos de muita brisa.

    Quiasco, enfeitado como um pavão, encostava-se em um e outro, querendo filar um cigarro ou pegar no pau dos caras.

    Miro pede uma pinga, em voz rochosa, mas audível.
Maria se aproxima, vendo ali uma oportunidade de fazer grana. Um outro bêbado acaba morrendo na mesa. Ninguém percebe. As moscas o rodeiam como urubus. Parece um sono passageiro. Só notarão quando a polícia fizer a limpeza.

    Maria senta ao lado de Miro e chama Maluca, lésbica convicta, e dona dali.
Maluca é apaixonada há muito tempo por Maria. Maluca tinha uns quarenta e cinco anos. Quando jovem, fora muito bela. Sabia e abusava disso. Maluca até não tinha muito escrúpulo. Atraíra, quando jovem, um dos grande músicos de Cubatão. Grande, mas pobre. Talvez classe média pobre.

    Maluca, dissimulada, conseguia do músico tudo o que queria. Porém, não lhe dava nada. Ele sedento, ela simulando interesse por trás do nojo que ele lhe causava. Só lhe dava uns beijos de lambuja. Quando, certa feita, ele, estimulado por ela, fez um empréstimo de grande monta, entregando-lhe o dinheiro, Maluca conseguiu o que queria. Pegou a bufunfa, construiu aquele bar e mandou o músico embora. Onde ele está? Me contaram que anda metido na serra do mar, a compor uma última sinfonia, com o fim de arrebatar a natureza e abalar os pilares dos céus.

    Maria chama Maluca, numa voz impaciente e rouca.
– Malu, uma breja zero!
- Prefiro uma bebida mais forte.
- Uma loura e um pele-vermelha, Malu!

    Roçando o corpo qual uma serpente, diz, direta e malemolente, chegando-se em Miro, como uma animadora infantil de TV das antigas.
-E aí, posso te chupar mais tarde? Miro sorri como que diante de uma criança peralta.
Maluca traz o que foi pedido, e aproveita pra cantar Maria, que reage.
– Maluca, segura a onda. Tu tá me devendo dois lambe-lambe. Depois que tu me pagar, posso pensar no teu caso. E outra coisa. Hoje, não tou muito pra mulher, não.
– Desse jeito, vou me sentir rejeitada.
– Isso é um problema teu.

    Miro a puxa pelo braço.
– Vem cá. Quero falar contigo.
Maluca encrespa.
– Quer largar ela, manguaceiro?
– Deixa que eu resolvo isso, malu.
Maluca se manda pro balcão, contrariada.

    Maria busca ser carinhosa com Miro.
- Sabe que o senhor parece com o meu pai?
– Você gosta de seu pai?
– Ele morreu. Mas eu gostava muito dele. Tanto que lhe dei meu gesto de amor mais caprichado faz dois anos atrás. Com um veneno bem cremoso de rato…Mas voltando a nós. O que tu quer de mim? Uma chupeta?
– Senta no meu colo?
Maluca se manifesta de novo.
– Ei, velho safado. Ela não é pro teu bico.

    Maria não se deixa dominar.
– Tá com ciúme, bem? Eu sou livre e sento minha bunda onde quero. Não preciso que ninguém me cuide. Ele aqui não me deve, pelo menos.
Ela senta no colo de Miro.
– Quer confessar seu sofrimento, tiozinho? Ou quer dar um piço?
– Você acha o quê do amor?
– Esse é meu serviço: fazer amor. Quer fazer comigo? Tu não vai se arrepender. E vai ser completinho, viu?
– Não, não, não é isso.

    Ela se espanta.
– Como assim?
– O amor é o caminho. Do teto até o chão. A lagartixa, o limo no muro, o cachorro, o gato e todo ser e objeto que são largados pelos homens. Toda criança sabe disso.

– Tu é poeta, é? Sabe que meu pai gostava de cordel? Era o lado dele que eu gostava. Ele sempre pedia pra ........
Enquanto isso, Maluca está lendo um jornal, com espanto. Mete o dedo no nariz e tira uma pelota.

    Maria brada pra Maluca, apressada.
- Manda uns amendoim aí, Malu!
Maluca traz o amendoim, cismada com Miro.
– Toma cuidado. Esse velho não bate bem.
– É um coitado. Não se mete.
– Sei não. Ele parece o maníaco pedófilo que tão procurando. Um que gosta de safadezar criança no colo e fazer aquelas coisa. Eu vi na TV inda agora....

– Maluca, acho que de tanto te chamarem de maluca, tu assumiu.
– Ta bem, sua ingrata. Fica aí, então. E você, velho, tou de olho, viu?
Ela mexe os quadris no colo de Miro. Ele pensa alto.
– Um amor que preencha tudo. Um amor como o das crianças.
– Eu posso te ajudar começando a te amar agora mesmo.
– O ser humano é uma escrita sem sentido...
– Meu pai dizia: o amor é um nervo duro, recheado de cabelo e a raiz nasce no cu...

–Pode ser que em outra vida...
– Você quer que eu?
– Você é um pouco pesada, mas parece uma criança. Uma criança que precisa de carinho....
– E de dinheiro.Você tem dinheiro, não tem?
– Já que você só pensa em dinheiro...
Miro tira uma maçaroca de dinheiro e lhe dá. Ela pega, sôfrega.
– Se você me der o dobro disso, eu deixo você por no cu.
Na porta do bar, chegam um pai e seu filho ao colo.
–É aquele velho, filho?
(....................................)

– Responde, filho!
– Parece. Mas vam’ embora, paizinho.
 

    O pai puxa um revólver, preme duas vezes o gatilho, e voam projéteis-colibris velozes como o som, dois assobios para o peito de Miro.
Chegam pelo ar. Parece que chegou a primavera. Miro atingido pela bala emudece, dobra e dorme, caindo em câmera lenta..
Maluca feliz:
- Falei?

    O pai preme mais vezes o gatilho. É preciso calar as testemunhas, que no bar são poucas. Aponta de novo a arma para um a um dos que estão ali.
Então, Maria, Maluca, as moscas, e, enfim, o bar todo emudece. Vão encontrar São Pedro no bar da entrada dos céus.
Os corpos no chão como um jardim, cujas flores vermelhas aderem ao solo úmido/chorão, em melodrama súbito.

- NATANAEL GOMES DE ALENCAR.

1 Comentário:

Ana Bailune disse...

Um ótimo conto. Passeei por um cenário triste e cinzento, com alguns tons em neon vermelho. Um lugar que só quem está lá compreende. Um lugar que quem vive na luz clara do dia, não suporta. Uma história maldita. Muito bom!

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