quarta-feira, 24 de julho de 2013

No Martam. - (Ou Lídia e Guiomar).

     A loja é pequena, mas jeitosa. Paredes em tom azul-claro. Tudo muito limpo e organizado.
Ela, a esposa, é a mais organizada dos dois.
Ele, o marido, gosta de atender as pessoas.
Caro leitor, não sei se lhe falo por que…decidi: vou falar. A história é inusitada, como toda história real. Hoje em dia, o real é que surpreende. Como aquele caso do trio sadomasoquista que esteve em todos os jornais da semana passada. Lembra?

     Um Lord tinha duas cadelas…Não, pera lá. Você não tá entendendo, é isso? Então, entra na internet e depois a gente conversa. Não posso falar sobre o caso assim. Ao menos, leia sobre o assunto.
Voltemos à comerciante e seu marido.

     Deixa eu lhe explicar melhor a situação. O marido, em verdade, é ......Só por fora parece homem. Olhando mais de perto percebe-se a ausência de volume pubiano.

     Quanto à mulher, lhe digo que nem sempre o foi. Era homem. Um homem bonito. O nome dela era José, um nome simples que a gente pronuncia sem constrangimento. Não é como Anaximenes ou Asclépio Usurpino. José. Assim só. Quase um sussurro. José, filho de Dona Guiomar, uma excelente doceira que faleceu quando ele tinha vinte e sete anos.

     José era apaixonado pela homossexual Lídia. Muito muitíssimo. Conheceram-se quando sentaram-se ambos naquele banco de praça do Largo do Sapo.
Olharam-se e já sentiram os corações acelerarem. Ela ficou confusa. Sempre gostara de mulheres. Ele ainda não sabia. Vestia-se ela como uma mulher comum. Um pouco até como adolescente. Suas pernas à mostra ainda eram convidativas apesar de uma mancha aqui e ali. E da idade beirando os quarenta e sete.

    Combinaram um encontro para o outro dia. E depois para o outro. E para o outro e outro e outro. Até que quase já eram um só.
Quando estavam já num estágio maduro da relação, ela lhe contou. Falou das ex-esposas, ex-namoradas, ex-paqueras, de um ex-namorado, única exceção masculina no leque de suas ligações.

    Ele entristeceu de início. Foi para casa, pensou em suicídio. Fora educado no extremo código conservador do evangelismo mais ferrenho. Fora o mais ferrenho defensor da cura gay nos tempos do Felicianuretto, um italiano ex-gay que odiava gays e que fizera polvorosa nas igrejas evangélicas há três anos.

    Coitado de José. Seu coração era agora um vulcão, uma confusão de emoções.
Lídia ficou arrasada. Tentara se envolver com uma garota que frequentava todos os dias o bar Martam. Uma dançarina de nome Karen, que odiava o nome Karen. Gostava de ser chamada de Andrea, de Andrea Bocelli. Era feminina, mas, se sentia um homem. Gostava de enfiar dedos, língua e consolos. Um pseudo-homem na carne, que não se sentia tal no espírito. José, naquela época, achava isso uma aberração.

    Uma vez, Lídia, para disfarçar o amor que curtia por uma garota, seduzira um homem quase cego, que fora atingido por um glaucoma. A garota pela qual ela carregava um mundo, era violinista. E seus pais eram de uma igreja evangélica, uma tal de Bolinhos de Neve de Deus, uma entidade bem ortodoxa.

    O homem seduzido morava do outro lado da cidade. Era amasiado e possuidor de uma grande coleção de pássaros engaiolados. Tinha enorme sensibilidade com os pássaros. Por isso deixava-os presos?

    Lídia só se atrevera a dar-lhe uns beijinhos. Era o suficiente.
Bem, esse caso não durou. A garota conseguiu um emprego em São Paulo. E Lídia passou a sentir nojo do homem.
Lídia não teve remorso nenhum. Todo homem para ela merecia punição. Como seu tio, que pegara muitas vezes ela no colo.
O homem quase cego ficou cego como o pássaro que Lídia furara com um alfinete.

    O grande problema se estabeleceu quando apareceu José. Fodeu tudo. José plantara uma erva de amor em suas veias.

    Um dia, estava ela, intranquila, a fumar um baseado, nas imediações do Martam e notou José a cambalear ao lado de um de seus grandes amigos de infância, o Aires. José também a vira.
Foi só se enxergarem pra se atirarem um nos braços um do outro.

- Eu te amanheço. – Esta a maneira dele dizer te amo só pra ela. O código deles pra substituir a palavra amor tão vulgarizada.
Ela lhe disse em resposta:
- Eu me anoiteço sem ti.

    O amigo, que não gostava de nada melado, saiu de banda, enquanto os dois passarinhos entrelaçavam os biquinhos.
José disse a Lídia que estava disposto a fazer tudo por ela. Que Lídia o aguardasse. Ele sumiria por seis meses. Mas estaria fazendo o melhor pelo futuro de ambos.

    Lídia concordou e ficou na expectativa.
Seis meses era tanto tempo, pensava Lídia. Mas também não era nada. Devido a sua ansiedade, demorou a passar.

    Um dia, no bar do Martam, estava ela a tomar uma cerveja. Olhava as meninas ainda com olhar de tesão. Porém, sentia uma lealdade com José que a impedia de levar avante seus desejos.
Na porta, alguém lhe mirava com volúpia. Uma mulher morena, de minissaia, bem maquiada. Parecia até uma dama da alta sociedade.

    Ela se aproximou:
- Oi, você é daqui?
- Você pode me deixar só?
- Eu até que gostaria, mas, me pediram pra entregar isso pra ti.
Lídia olhou para as mãos dela e pegou a sacola que a outra lhe estendia. Era uma sacola com baseado suficiente pra todo o mês. Quem terá pedido pra entregar-lhe? Teria sido José?

- Foi o José que mandou? Onde ele está?
- Foi sim. Ele está aqui.
- Aqui. Onde? Me diga logo.
- Sou eu, minha manhã de sol.
- Você?
- Sim, troquei de sexo por ti. Tomei hormônios. Sou agora a mulher com a qual você sempre sonhou. E minha voz? Gosta?
- Não? Não creio.
- Sim. Pode crer, minha bela. Meu nome agora é Guiomar.
- Guiomar, que nome bonito…Me beija logo.

    Ambos se beijaram febrilmente, dava pra se ver os fogos explodindo na alma.
Lídia, pra não ficar em desvantagem, tratou de providenciar a sua masculinização. Ganhara pelos, cortara os cabelos. Só não conseguiu trocar de sexo. Nem abandonar os vestidinhos. Nem o hábito de comprar sapatos de salto alto. Deixaria pro outro ano a mudança de sexo. Até abrira uma poupança no Banco do Brasil pra esse fim.

    Ambos, no intuito de aumentar a renda, abriram um sex-shop. Um negócio bem promissor nos dias que correm.


    Lá vem Lídia. Ela, ou seja, ele, ou seja ela, ou seja….falemos ele, pela alma (ou mente ou alguma coisa fluídica) Bem, ele entra, ajeitando vestidinho e brincos, falando em minha direção:
- O que o senhor deseja? Temos acessórios de todos os tipos. Veja esse grande que chegou da Holanda…

- NATANAEL GOMES DE ALENCAR.

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