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No bar do Naldo- Jack se estira!!!

sexta-feira, 22 de novembro de 2013.
       
       Todos estão felizes naquele bar. Ali, a cerveja mais barata do entorno.

       O bar do Naldo, na Avenida Vila Nova, perto do Bar do Otan. Um bar que vive cheio de estudantes, principalmente.

       No Naldo’s Bar, como o batizou o “Besteblack”, rapaz branco como leite, caráter cem por cento, cujo nome verdadeiro era Astrogildo, também há lanches bem variados e com um preço ao alcance do bolso da moçada.

       No canto, próximo à mureta, a gente sempre acha, infalivelmente, aos fins de semana, o Moreno, à espera de seu parceiro, o Lean, para ler mais uma peça. Ficaram especialistas em ler peças nos bares, lugares não muito apropriados segundo as convenções mais usuais.

      Eles leem com poucas interrupções sem queixa.

     Moreno, nesse momento, ri, cinicamente, do nervosismo de Naldo.

     O Naldo é um sujeito que conhece Cubatão como a palma de sua mão. Sabe o nome de todos os times de várzea que jogaram na cidade, além de acompanhar todos os campeonatos do Brasil.

- Que é, Naldo? Virou são paulino? – brada o Moreno, aludindo a um desenho que colocaram no poste, ao modo de uma placa de trânsito, onde um veado saltava sobre o símbolo do São Paulo.

- Eu sou homem, rapaz! Corinthiano até o fim do mundo!

     Jack, no outro extremo, escuta:

- Dizem que no último jogo vocês compraram o juiz!

- Você não entende nada, Jack! Não tem competência nem pra segurar mulher!

     Naldo falou, mas, se arrependeu. Conhecia bem a história de Jack.

     Um menino bom, com azar no amor. Desde que rompera com Suzana, danara a beber, como é o costume dos bebedores na vida, nas novelas, nos filmes e nos enredos de alguns livros.

     Naldo, fingindo neutralidade emocional, entrou na cozinha para preparar mais um lanche que o Manduca, sambista da nova geração cubatense, lhe pedira.

     Jack calou e foi pra fora, se sentando no meio-fio. Chorava como a chuva que caía, fina, interminável e fria.

     Juanito se aproxima. Outro azarado. Molhado, mas cheiroso de excesso de perfume caro. Quase tropeça em Jackson na calçada.

     Juanito era chamado de Marijuanito no início. Mas o nome era muito comprido. Passaram a chamá-lo de Juanito. Gostava de uma erva como amava ao seu amado, o Fubeca.

- Ei, olha por onde anda, seu…Ah, é você.

     Jackson se levanta, esquecido da dor que o assolava. Como sempre, quando divisa um amigo, abre os braços em generosidade quase mística.

- Juanito, meu camarada!

- Jackson, não consigo esquecer aquele traste!

- Vamo sentar ali.

- Eu tou numa fossa sem igual, mermão.

- Então, somos dois.

- O Fubeca, aquele idiota, me ofendeu por causa de um poodle.

- Brigaram por causa de um poodle?

- Pois então.

     Jack não entendeu essa história do Juanito. Não queria esticar conversa pois já divisara na esquina o Lean. Uns chamavam Lean de Careca. Mas só quem não o conhecia de longa data. Perdera os cabelos há pouco tempo. Por causa do estresse que lhe veio após a morte do pai. Não dera tempo pros amigos rebatizarem-no como careca.

     Lean e Moreno faziam apresentações nos bares. O projeto nasceu sem querer, ali no bar do Naldo. Contudo, a brincadeira foi ganhando vulto e a dupla é requisitada em vários bares.

     Quando começaram, não tinham idéia da dimensão que essa iniciativa ganharia. Fortalecidos pelas eleições, eram chamados pra declamar em todo lado de Cubatão.

     Lean e Moreno se conheceram no grupo de teatro chamado “Insolentes Insanos”. Este grupo deu certo dinamismo à cidade na área teatral. Só que um dos integrantes sujou o nome da organização. Então, decidiram os dois colocar mãos à obra em outros projetos.

     Quando Lean entrou no bar, Jack, todo sorridente e, claro, com interesse nas cervejas que o outro ia pagar, o abraçou como um irmão não visto há anos, como que vindo de alguma cabeceira agreste.

     Lean se saiu com essa:

- Não agarra muito que eu me apaixono – e soltou uma gargalhada, achando que estava fazendo uma grande piada.

     Quando Juanito viu que Jack ia ficando na mesa com Moreno e Lean, gritou:

- E eu? Tá me tirando, Jack. Eu tava falando contigo. Quero desabafar com um amigo. Tou sofrendo pra carai. Tu não é meu amigo?

- Sou deles também – se referindo a Moreno e Lean.

Moreno sussurrou aos ouvidos de Jack:

- Vá lá, vá lá falar com ele, se não, ele escandaliza! – Moreno em verdade queria discutir um texto com Lean e Jack não ia deixá-los em paz. Apesar de sua conversa ser agradável e de conteúdo, Jack falava mais que papagaio.

     Jack olhou pra fora nesse momento e viu quem nunca imaginaria estar ali: sua amada Suzana. Uma música veio-lhe à cabeça:

Oh! Suzana
Não chores por mim
Pois eu volto pro Alabama
Pra tocar meu banjo assim...

     Notou que ela estava triste e lhe chamava. A chuva dava um ar de sensualidade aos cabelos de Suzana. Ela gritava do outro lado da rua:

- Jack! Jack!

     Juanito decidiu subir numa das mesas e imitar Sidney Magal, querendo chamar a atenção de Fubeca, que estava tomando uma tequila do outro lado da avenida.

Quero vê-la sorrir, quero vê-la cantar
Quero ver o seu corpo dançar sem parar
Quero vê-la sorrir, quero vê-la cantar
Quero ver o seu corpo dançar sem parar..

     Jack caiu na calçada, após o delírio, logo que pulou a mureta.

     Sivuca, meio médium, um passista das antigas, diz-que viu um carro derrapando e uma moça encaveirada. Disse que era a Catrina, assombração que veio do México. Será que foi essa assombração que Jack vira?

     Naldo se manifestou lá de dentro:

- Quem vai levar o Jack pra casa?

Só Juanito, um pouco menos alterado, se manifestou:

- Eu levo.

     Enquanto, sobre o bar do Naldo, a lua pontificava, como que sorrindo da nova piada do bar, Jack vai sendo levado por Juanito e Fubeca, que se aproximara oferecendo ajuda.

     Naldo olha o relógio. Daqui a pouco, é hora de fechar.

- NATANAEL GOMES DE ALENCAR.

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