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No Bar do Naldo, Jader mente e chora!!!

terça-feira, 26 de novembro de 2013.
     Todos estão felizes naquele bar. Ali, a cerveja mais barata do entorno.

      O bar do Naldo, na Avenida Vila Nova, perto do Bar do Otan.

      Ali, vemos grupos diversos, espelhando a nossa conhecida diversidade sexual e cultural. Num canto, os sambistas. Noutro, os roqueiros. E ainda noutros cantos os que amam o rap, o funk, etc.

      No Naldo’s Bar, como o batizou o “Bestafera”, rapaz branco como leite, caráter cem por cento, cujo nome verdadeiro era Astrogildo, também há lanches bem variados e com um preço ao alcance do bolso da moçada.

      Próximo à mureta, a gente sempre acha, infalivelmente, aos fins de semana, o Moreno, à espera de seu parceiro, o Lean, para ler mais uma peça. Ficaram especialistas em ler peças nos bares, lugares não muito apropriados segundo as convenções mais usuais.

      Jader conta uma história para o filho do Naldo, que acabara de fazer uns vinte lanches e sentou pra dar um tempo.

- Rapaz, vou te contar. Quando tava vindo de Santos, com a irmã da Suzana, que tu conhece, a …..

- Lúcia, morenaço ela, sei...

- Ela tava cheia de álcool na cabeça, tronco e membros. Com a mão boba, não é que ela me abriu a braguilha, rapá?

- Abre a de todos quando tá bêba...

- Como a gente tava no banco de trás e a gente era os únicos nessa parte do ônibus, deixei rolar. Por dentro, eu tentava me justificar com Deus: putaqueopariu, se a Suzana pega a gente agora, tamo fodido! O que que eu posso fazer? Se não faço, não sou homem. Meu pai me criou assim. Em prontidão. Mulher encostou, fica duro. Sou macho. Não machucado. Claro que não é certo com a irmã da Suzana, mulher que eu amo. Mas como resistir? Ela gosta do perigo. E o perigo atrai, dá tesão. E a filhadaputa da Lu é gostosa, tu sabe, que tu já ciscou ali no bocetão dela. Não sei como ela pode fazer isso com a irmã, pensava, como se eu também não tivesse culpa. Uma irmã que ela diz que ama pra carai. E naquele dia, um pouco antes do ônibus, a gente no banheiro. Lu entrou sem eu perceber. Eu tava me limpando. Ela pegou o papel e pediu pra limpar pra mim. Foi foda. Depois ela sentou e eu limpei ela. Fiquei louco, loucão. A gente entrou no chuveiro e ela me serviu entrada e prato principal. Ai chega a Suzana e bate na porta do banheiro. Sorte que já tinha me lambuzado. Ela ouviu a voz da Lu e perguntou onde ela tinha deixado o secador. Fiquei num cagaço que só vendo. Quando ela foi pegar o secador, sai, me vesti la fora no quintal, com medo de que alguém me visse, e bati na porta da casa fingindo que tava chegando naquela hora. Foi foda. Por que quem me abriu a porta foi a Lu.

      Na rua, enquanto Jader fala com o filho do Naldo, o ...Já lhe falei, leitor, o nome do filho do Naldo? O nome dele é Naldinho. Enquanto Naldinho e Jader conversam, na rua lateral se aproxima o Esteves, que sempre está com uma lata de leite e tabaco pra vender e assim ajudar a comprar o bifinho das crianças, como diz ele.

      Moreno, nesse momento, perto da mureta, ri, cinicamente, do nervosismo de Naldo.

      O Naldo é um sujeito que conhece Cubatão como a palma de sua mão. Sabe o nome de todos os times de várzea que jogaram na cidade, além de acompanhar todos os campeonatos do Brasil.

- Que é, Naldo? Virou sãopaulino? – brada o Moreno, aludindo a um desenho que colocaram no poste, ao modo de uma placa de trânsito, onde um veado saltava sobre o símbolo do São Paulo.

- Eu sou homem, rapaz! Corinthiano até o fim do mundo!

Jader, no outro extremo, escuta:

- Dizem que no último jogo vocês compraram o juiz!

- Você não entende nada, Jader! Não tem competência nem pra segurar mulher! Foi desprezado pela Suzana e pela irmã dela!

      Ali, o Naldinho sacou que só ouvira mentiras do Jader. Mentiroso do caralho! Zé Buceta! Não, isso não, que é muito gostoso! Ele, para o Naldinho, era um Zé Pica! Um Zé Pica com gonorréia!

      Naldo falou, mas, se arrependeu. Conhecia bem a história de Jader.

      Um menino bom, com azar no amor. Antes da Suzana, Jader estava noivo de Alzira. Doentinha sempre, desde criança a coitada! Por fora, uma princesa da Idade Média. Por dentro, órgãos de pouca duração, principalmente, o coração, fraquim fraquim. Quando morreu Alzira, Jader tentou se matar. Foi até a estrada de ferro e se deitou durante uma hora. Sorte dele o trem não ter passado. Se levantou e foi pro bar do Naldo.

      Dali a um ano, namorou firme com Suzana. Mas não deixava de chorar pela outra. Só falava na doentinha. No quanto ele a amara. E pedia perdão à Suzana por não conseguir repetir a intensidade do amor que teve.

      Suzana se cansou. Mandou Jader plantar batatas, já que na feira era caro.

      Desde que rompera com Suzana, danara a beber, como não fizera por Alzira, ao jeito dos enredos de algumas peças que Lean e Moreno escreviam no bar do Naldo.

      Naldo, fingindo neutralidade emocional, entrou na cozinha para preparar mais um lanche que o Manduca, sambista da nova geração cubatense, lhe pedira.

      Jader calou e foi pra fora, se sentando no meio-fio. Chorava como a chuva que caía, fina, interminável e fria.

      Juanito se aproxima. Outro azarado. Molhado, mas cheiroso de excesso de perfume caro. Quase tropeça em Jader na calçada.

      Juanito era chamado de Marijuanito no início. Mas o nome era muito comprido. Passaram a chamá-lo de Juanito. Gostava de uma erva como amava ao seu amado, o Fubeca.

- Ei, olha por onde anda, seu…Ah, é você.

Jader se levanta, esquecido da dor que o assolava. Como sempre, quando divisa um amigo, abre os braços em generosidade quase mística.

- Juanito, meu camarada!

- Jader, não consigo esquecer aquele traste do Fubeca!

- Vamo sentar ali.

- Eu tou numa fossa sem igual, mermão.

- Então, somos dois.

- O Fubeca, aquele idiota, me ofendeu por causa de um poodle.

- Brigaram por causa de um poodle?

- Pois então.

      Jader não entendeu essa história do Juanito. Não queria esticar conversa pois já divisara na esquina o Lean. Uns chamavam Lean de Careca. Mas só quem não o conhecia de longa data. Perdera os cabelos há pouco tempo. Por causa do estresse que lhe veio após a morte do pai. Não dera tempo pros amigos rebatizarem-no como careca. Mas era questão de tempo isso.

      Lean e Moreno se conheceram no grupo de teatro chamado “Insolentes Insanos”. Este grupo deu certo dinamismo à cidade na área teatral. Só que um dos integrantes sujou o nome da organização. Então, decidiram os dois colocar mãos à obra em outros projetos.

      Quando Lean entrou no bar, Jader, todo sorridente e, claro, com interesse nas cervejas que o outro ia pagar, o abraçou como um irmão não visto há anos, como que vindo de alguma cabeceira agreste.

      Lean se saiu com essa:

- Não agarra muito que eu me apaixono – e soltou uma gargalhada, achando que estava fazendo uma grande piada.

Quando Juanito viu que Jader ia ficando na mesa com Moreno e Lean, gritou:

- E eu? Tá me tirando, Jader. Eu tava falando contigo. Quero desabafar com um amigo. Tou sofrendo pra carai. Tu não é meu amigo?

- Sou deles também – se referindo a Moreno e Lean.

Moreno sussurrou aos ouvidos de Jader:

- Vá lá, vá lá falar com ele, se não, ele escandaliza! – Moreno em verdade queria discutir um texto com Lean e Jader não ia deixá-los em paz. Apesar de sua conversa ser agradável e de conteúdo, Jader falava mais que papagaio.

Jader olhou pra fora nesse momento e viu quem nunca imaginaria estar ali: sua amada Suzana aos beijos com Alzira. Uma música veio-lhe à cabeça:

Oh! Suzana
Não chores por mim
Pois eu volto pro Alabama
Pra tocar meu banjo assim...

Notou que elas estavam nuas. A chuva dava um ar de sensualidade aos corpos delas. Pararam um pouco e o chamaram:

- Jader, vem cá!

      Nessse momento, um carro passa na toda. Vruuummmmmmmm!

Juanito, delirante, desviou a atenção para outras coisas. Decidiu subir numa das mesas e imitar Sidney Magal, querendo chamar a atenção de Fubeca, que o observava de longe, enquanto tomava tequila no bar do Otan.

Quero vê-la sorrir, quero vê-la cantar
Quero ver o seu corpo dançar sem parar
Quero vê-la sorrir, quero vê-la cantar
Quero ver o seu corpo dançar sem parar..

      Jader caiu na calçada, após o delírio, logo que pulou a mureta.

Sivuca, meio médium, um passista das antigas, diz-que viu um carro derrapando e duas cadelas encaveiradas.

      Naldo se manifestou lá de dentro:

- Quem vai levar o Jader pra casa?

Só Juanito, um pouco menos alterado, se manifestou:

- Eu levo.

      Enquanto, sobre o bar do Naldo, a lua pontificava, como que sorrindo da piada do poste, Jader vai sendo levado por Juanito e Fubeca, que se aproximara oferecendo ajuda.

      Naldo olha o relógio. Daqui a pouco, é hora de fechar.

      Ninguém vê o Tucano, filho do Alemão, todo doidão, com um revólver engatilhado, que iria descarregar nas pernas de Fubeca pelo simples motivo daquele olhá-lo atravessado, porque Jader pesava como um hipopótamo inchado e isso atravessava o olhar concentrado de Fubeca, que já era um pouco vesgo.

-NATANAEL GOMES DE ALENCAR.

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