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Morreu sufocado por mulheres!!!

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014.
        Moravam ali fazia dez anos. Foi a primeira casa do bairro Jardim Costa e Silva. Três cômodos. Uma casinha até bonitinha, graças aos cuidados dela. Tinham uma filha muito inteligente, de sete anos, em verdade uma precoce, como dizem.

        Ele, o "homem", chegara há pouco da eterna procura por emprego. Iam levando a vida se beneficiando de planos governamentais, enquanto a maré estava brava.
Chegou, nem cumprimentou a esposa, nem a filha. Já sentou e se serviu da comida, ainda quentinha. Ela ficou olhando.

        Ele de um lado da mesa mastigava com voracidade.

        Ela, cega por opção de não querer mais enxergá-lo, do outro lado, começou:

        - Sabe o que eu acho? Se fossem os homens que parissem. Escuta bem. Se fossem os homens que dessem á luz. Se. Se as mulheres é que, nos tempos primitivos, fossem caçar, hoje não teríamos um Deus e sim uma Deusa.

        Ele não se contém.

        - Mulher, você está com o demônio!

        - Me escuta. Se as mulheres desde o início fossem o sexo forte, teríamos uma Deusa, sim. Porque seria um sistema matriarcal.


        A filhinha:


        - O ideal mesmo seria o equilíbrio, se eu acreditasse. Um casal como filhos de deus, não um homem ou mulher...Só não entendo por que Deus não quis mulher, tal qual Zeus.

        - Vocês duas têm que se humilhar, se colocar aos pés do Senhor.

        - Perante um Deus ou uma Deusa não se humilha, em primeiro lugar. Talvez se houvesse uma Deusa, não houvesse humilhação. Digo talvez. Porque homem e mulher têm os mesmos defeitos potenciais, eu acho.

        - Você está desafiando minha autoridade de senhor desta casa.

        - Se os homens parissem, fossem mais frágeis, como nós mulheres, menstruando e tudo mais, não teriam tempo de erguer seu poder histórico. O pai só ganha mais porque a mãe ficou tanto tempo na cozinha. Nós teríamos que ter uma cota mundial.

        - Não fiz nada de propósito. Quando nasci tudo já tava aí. Se eu nascesse mulher, não seria homem.

        - Mas que tu gosta, gosta. Tua comidinha, tua roupinha lavada e passada. Quem é que cuida? 


        Ele não respondeu. Ela continuou:


        - Sabe quanto tempo demorou pra uma mulher usar uma calça, fumar um cigarro, ter uma profissão no mercado de trabalho? 


        Ele nem aí.


        - Sabe quantas mulheres morreram por serem tachadas de demoníacas?


        Ele se despiu na frente dela. 


        - Se vocês tivessem um corpo frágil, hoje talvez eu é que dissesse que você tá com o diabo.

        - Pára com isso. Deixa eu comer. Tá muito calor pra esse papo.

        - Esqueceu do soco que você deu ontem em meus peitos? Do pau que você bateu na mesa?

        - Já passou.

        - Se fosse o contrário. Se. Se você fosse frágil, eu ia arrebentar com os seus olhos! Eu só vivo aqui por meus filhos e por medo que você me persiga e os mate!

        - Se você fugir, eu faço isso mesmo.

        Quando ele falou isso, entraram na cozinha a mãe dela, as cinco irmãs, uma avó, uma bisavó, as quatro vizinhas do lado da casa e da frente. 


        E mais mulheres foram chegando, até que ele morresse na cozinha, sufocado, uma enormidade de mulheres em cima.

- NATANAEL GOMES DE ALENCAR. 

A imagem da pintura que ilustra o texto publicado acima, é da autoria do artista plástico Di Cavalcanti-(Rio de Janeiro, 6 de setembro de 1897- Rio de Janeiro, 26 de outubro de 1976). O nome da pintura é "Mulheres protestando"de 1941.  

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