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O poeta está vivo.

segunda-feira, 7 de abril de 2014.
          A caneta do poeta está descansando, e desta forma suas metáforas encantadas pararam de ser fabricadas na usina de sua mente drumondiana.

        Fortaleza e Cubatão, hoje à tarde, ficaram mais tristes, mas esperançosas, porque o poeta já se livrou das garras da Morte várias vezes no curso de sua vida, e, agora, quem sabe, dará um baile em Dona Morte.

        A caneta do poeta foi repousada ao lado de seu leito, e uma solidão melancólica apossou-se de mim; cadê sua voz nordestina aquecida sob os raios de sol de sua alma, sempre a envolver os amigos com suas piadas, doce convite a dançar com a vida?

        Ah, a vida! Por falar nela, ultimamente, esta me têm só pregado peças, e agora mais isto: a mão escrevente do poeta está inerte. Mas, se bem o conheço, lá dentro de si quiçá planeje algum retorno triunfal ao palco da vivência humana.

        Poetas costumam ser assim: aves fênix que surpreendentemente ressurgem das próprias cinzas do seu ocaso.

        Agora, aquele convite para o cafezinho me faz falta, assim como o gosto daquela coxinha frita que nos serviam na lanchonete que ficava na Igreja Católica matriz, ao lado da Biblioteca Central.

        Lembro-me que, sentados nas mesinhas daquele lugar, esperávamos ser atendidos pelas jovens garçonetes, nossas amigas.

        Uma delas até se tornou uma paixão platônica do poeta. Sinto, nestas horas atuais, saudades de seus discursos que às vezes enunciava nestes nossos encontros sobre a importância de se proteger a poesia, e de nela se deixar um vão para que possamos entendê-la.

        A pena autoral do poeta está silente. Mas o espírito de seus versos não está. Grita sempre com estardalhaço diante do leitor. Seus poemas bradam: se enxerguem no nosso espelho!
Toquem nas nossas feridas!

        Eu ainda continuo esperando, sabendo que é pura loucura minha, que o meu telefone toque a qualquer momento, e,  ao atendê-lo, eu consiga novamente ouvir o seu sotaque inglês, forjado em xiquexiques e mandacarus, a me convidar para que possamos ir juntos, sempre aos sábados, à casa de um outro amigo nosso, também poeta e que, semelhantemente a nós, é um buscador de ritmos que espelhem o mistério da vida.

        Mas agora a pena inspiradora do poeta mergulhou no lago frio da paralisia, e a tinta de sua criatividade autoral secou, ainda que momentaneamente. Então, de três mosqueteiros, agora somos dois.

        Onde foi parar mesmo o nosso querido Aramis?

        Posso estar triste, entretanto não vou chorar. O poeta não iria querer isto de mim, antes me chamaria a atenção me pedindo ânimo, e, para completar, me diria:- Ao invés de se entregar ao pranto por mim, porque não me escreves uma poesia? Afinal, é pra ela que vivemos.

        Hoje,  um passarinho pousou em minha janela, acordando-me com seu canto; tenho certeza que era o poeta na forma desse pequeno pássaro; este veio me visitar para mais uma vez me lembrar que o verdadeiro poeta assim como a autêntica poesia nunca morrem, mas ambos continuam sempre vivos nos fatos cotidianos e nas expressões mais vulcânicas e belas da natureza e da existência humana.

  - ELTON SIPIÃO O ANJO DAS LETRAS 

Dedico essa poesia ao meu grande amigo e talentoso poeta Leonardo Firmino- Pombal- Estado da Paraíba- 06 de julho de 1952. – Cubatão- Estado de São Paulo- 05 de abril de 2014.

A foto que ilustra o texto publicado acima é da autoria da fotografa Jordana Lima Duarte, tal fotografia retrata o rosto do escritor paraibano Leonardo Só, o Poeta Clandestino.

Revisão ortográfica e textual realizada por Natanael Gomes de Alencar.  

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