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É somente por ela que eu vivo nu

quinta-feira, 31 de julho de 2014.
         Ela se esquece de que eu vivo nu apenas para satisfazê-la, e é lógico, tornar a sua cabeça um turbilhão de pensamentos e imagens sobre mim. O tempo não nos engana, todo engano é na verdade um descuido somente nosso, os fios de cabelos brancos que nos aparecem estão longe de ser uma ilusão de ótica, quando menos percebemos, já trilhamos um bom trecho do nosso caminho existencial.
        
        Se nós enterramos os nossos mortos, porque é que eles continuam existindo dentro dos nossos corações angustiados?Os nossos dias de luto talvez nos sirvam para que este sentimento de orfandade em relação àqueles que nos deixaram não nos domine por completo. A morte somente é ruim para quem sobreviveu àquele que se foi.
        
        Ela está esperando a minha chegada, a boca vermelha de batom, o vestido da cor do marfim, curto e colado ao corpo esbelto, o cigarro aceso e sendo devidamente tragado pelos lábios carnudos, os olhos azuis cintilando sedução desmesurada.  E eu tolo incauto ignorando a fera vampírica que nela me espera, desejando devorar-me vivo, ansiando beber meu sangue carmim e quente como o magma que escorre do seio do vulcão.
        
        Ela me espera no interior da nossa casa, nosso lar e moradia antiga que dizem tem um teto semelhante às construções feitas em Paris. Seu corpo de ninfeta acesa me espreita escondida atrás de pedras existentes nas colinas das paixões, e seu olhar de pantera que caminha felinamente pelas savanas incendiadas do prazer, cai sobre mim escolhendo-me como seu macho adorável.
        
        A lua cheia neste instante, que se ergue prateada sob o veludo negro do céu, joga luz branca sobre a nossa varanda aberta, onde fazemos amor como dois animais selvagens; possuídos por um desejo que não conhece fronteiras para simplesmente existir.
        
        Também agora na faixa de Gaza, soldados israelenses comemoram em cima de corpos empilhados de árabes mortos, a derrota definitiva do amor. Estes bebem festivos na taça ébria da sua própria desumanidade.

- ELTON SIPIÃO O ANJO DAS LETRAS

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