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No mundo dos mortos

quarta-feira, 10 de setembro de 2014.
      Chegou de noitinha à entrada daquela cidade, enormemente cansado.
Encostou-se em uma árvore centenária, a quinze metros do rio. Pôs a mala velha de lado e tirou uma soneca.
Quando acordou, na noite seguinte, um circo estava montado a uns vinte metros de si, no sentido da cidade. Uma movimentação inusitada o rodeava.

        Feras circulavam sem peias. Mansas, porém grandes e peludas. Um leão, um tigre, um elefante que parecia um mamute, um avestruz (que não era exatamente uma fera para os outros, mas pra ele....).

        Um palhaço se aproximou:
        - Tá precisando de um lugar pra dormir?
        - Ah, sim. Obrigado. Eu preciso pelo menos de uma noite para prosseguir.
        - Sem problemas. Meu quarto fica naquele trailer. Tudo bem?
        - Já dormi em lugares piores que trailer.
        - Certo. Meu nome é José. O seu...
        - Epaminondas. Pode me chamar de Nondinho. Meus amigos me chamam assim.
         - Tá bom, Nondinho. - Estendeu-lhe a mão.

        Chegando ao trailer, Nondinho (fiquemos íntimos logo dele) arrumou sua mala num cantinho. Conferiu suas roupas, pegou um sabonete, já no fim, sua calça jeans de todas as horas, uma camisa lisa vermelha, e decidiu tomar um banho no rio.

        Quando estava nadando, estranhou uma movimentação o fundo. Puxou ar e mergulhou. O que viu não permitiu avaliação crítica. Uma moça estava amarrada a uma pedra e se deblaterava. Num instante, ele, que já fora bom em quase todos os esportes, possuidor de algumas medalhas e jornais que o louvavam, livrou a moça, levando-a à superfície. Fez respiração boca boca, como convinha e a moça deu um suspiro profundo, revivendo.

        Olhou à volta e notou que o circo havia desaparecido. Não entendeu o que acontecia. Levantou-se, esfregou os olhos e, por um momento, pareceu-lhe ver uma das feras, e o trailer. Mas foi só por um momento.
Ouviu um barulho e olhou na direção do mesmo. Para sua surpresa, o palhaço que o hospedara se aproximava, tirando um espelhinho de um saquinho na cintura.
        
        - Nondinho, você hoje me fez feliz.
        - O que você quer...
        - Quero dizer que você finalmente nos libertou.
        - Como assi....
        - Tenho o prazer de lhe apresentar minha amada Lídia.

        Quando ele olhou pra ela, um esqueleto de pé com um vestido antigo lhe sorria.
Quando Nondinho voltou o olhar para José, este era agora um esqueleto, que estendia-lhe um espelhinho.

        Nondinho pegou o espelho rapidamente pra ver se....não, ele não era um esqueleto, mas, sim, ele estava sangrando. Na certa, ferira-se no rio. Pensou no vampiro brasileiro de Chico Anísio.
José pegou nas mãos ossudas de Lídia, olhou-a e se dirigiu a Nondinho.

        - Quer saber por que está sangrando?
        - Por quê?
        - Porque está morrendo. No mundo dos mortos, todos sabem das crianças que você violou e matou.

        Do rio, vinham vozes: "você nos matou bem longe de mamãe, você nos matou bem longe de papai".
       
        Nondinho olhou e viu dezenas de crianças boiando no rio. De súbito, uma grande quantidade de lama se eleva do rio e o cobre, qual um tsunami negro e fétido. Um redemoinho se forma e o traga para o abismo infernal.
Enquanto somem no ar, ficam José e Lídia a dançarem inaudível canção, cantada pelas corredeiras do rio, orquestrada por grilos e insetos e estranhos pássaros pretos.

- NATANAEL GOMES DE ALENCAR

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