sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Bruna Surfistinha

        Eu nunca quis depender de ninguém, nem Deus e muito menos o diabo foram meus senhores. Ah, baby, eu carrego nas minhas veias o “doce veneno do escorpião”. Então te aviso: tome cuidado com o meu mortífero ferrão, eu o guardo bem no meio das minhas coxas.
        
        Preferi ser puta a ser apenas uma mera filhinha de papai, assim pude me conhecer melhor, assim aprendi a andar com as minhas próprias pernas.  O mundo, o tempo todo, tentou ser um grande filha-da-puta comigo, mas eu resolvi lhe dar o troco e decidi cuspir bem no meio da sua cara.
        
        Atirei-me como uma leoa jovem e indomável bem no meio desta selva de pedra, chamada Rio de Janeiro. Comecei minha odisseia, tornando-me sacerdotisa de um deus antigo e divertido, que atende pelo nome de “Orgasmo”.
        
        Muitos fiéis, cultuadores de tal deus, vieram a mim, e eu mostrei-lhes onde deveriam adorá-lo, lhes revelei o templo triangular, feito de carne e pelo que guardo em meu meio; com avidez e devoção, esses meus seguidores provaram e beberam das delícias infindáveis provindas do meu sagrado interior.
        
        Minha mensagem se espalhou pelos quatro cantos da “cidade maravilhosa”, fazendo com que o meu rebanho de discípulos tomasse proporções numéricas incalculáveis.  Eu sabia somente uma coisa: que Messalina, uma das mais importantes sacerdotisas desta minha religião no passado, estava comigo e havia me agraciado com seu sacro dom: o do coito.
        
        Conheci o rápido enriquecimento,  o dinheiro caia como uma cascata viva sobre a minha cabeça, me ungindo de felicidade e contentamento. Todos, absolutamente todo mundo, queriam me levar para o leito dos prazeres orgásticos, não importava se fosse homem ou mulher, até casais imploravam para ficar comigo. Decididamente, eu era a deusa do sexo carioca.
        
        Fiquei tão famosa, quanto se é permitido a uma deusa do sexo ficar. Com a fama, também vieram todo o tipo de amizade, amizades boas e más, e foram essas ultimas que me levaram aos vícios mais degradantes -  os vícios químicos. 
        
        Conhecendo a força negativa de tais vícios, caí de cima do meu céu de luxúria, dinheiro e fama, e conheci aquele que seria meu verdadeiro inferno astral.  Então, um a um daqueles que se diziam meus amigos, foi me abandonando, como também muitos dos meus seguidores do passado. 

         Eu me tornara uma divindade do sexo, ultrapassada e vencida pelos meus próprios excessos.
        
        Mas, aos poucos, fui me levantando e com muito esforço eu recuperei o amor e o desejo daqueles que um dia seguiram meus passos até a minha alcova vermelha de orgasmos extasiantes. Mas no fundo do meu coração eu decidira parar com tudo aquilo, eu não poderia ser para sempre a sacerdotisa perfeita do prazer carnal, a minha vida pedia para ser mudada e resolvi atender a este seu pedido.
        
        Hoje, eu sou mulher de um só homem e, mais do que nunca, dona do meu próprio nariz, como havia escolhido ser desde o princípio desta odisseia que acabei de contar aqui. Sei quem fui e sei quem eu sou, e não me arrependo de nada do que fiz ao longo da minha trajetória de vida, orgulho-me de ter sido mulher o bastante para escrever e reescrever a minha própria história. Querem saber meu nome? Eu vou vos dizer: meu nome é Bruna, “Bruna Surfistinha”.

- ELTON SIPIÃO O ANJO DAS LETRAS

Crônica em homenagem a Raquel Pacheco-, (Sorocaba- São Paulo -, 28 de outubro de 1984) -, ex-garota de programa que ficou conhecida em todo o Brasil como "Bruna Surfistinha". 

A imagem que ilustra o texto publicado acima; é da atriz global Deborah Secco interpretando a ex-garota de programa “Bruna Surfistinha” no filme intitulado “Bruna Surfistinha”, película cinematográfica produzida em fevereiro de 2011. 

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