quinta-feira, 9 de julho de 2015

Femina


         Mulher,  que convoco do âmago mais profundo da terra, ser de delicadezas inconfundíveis, pois, outra criatura dentro da natureza não consegue imitar-te em teus gestos plenos de uma beleza gentil e profundamente poética.

         Sim, te chamo do seio materno de Geia, porque tu és filha legitima do seu poder criador, do barro foste criada e levantada diante dos abismos celestes e terrenos, como donzela, mãe e anciã, porta sagrada de entrada e saída da grande tribo da espécie do homo sapiens.  

         Dos teus seios fartos e rijos veio o leite que sustentou grandes reis, papas e guerreiros, o teu sangue sacro-profano já ungiu iluminados sacerdotes e sacerdotisas, servidores dos elevados deuses antigos e pagãos.  

         Tu és e sempre será o meu alfa e ômega, afirmo com convicção que antes do verbo existir tu já reinavas no coração de todos os seres vivos; as cavernas neolíticas e paleolíticas foram teus santuários originais, onde nossos primeiros pais e mães cultuavam-te na persona da Grandiosa Deusa-Mãe, a senhora divina da fertilidade; a pequena estatueta pré-histórica da Vênus de Willendorf é uma prova viva desta irrefutável verdade.

         De mãe para filha, através de seguidas gerações, sempre foi passado para ti  o conhecimento do uso das ervas medicinais;  digo, então, sem medo de errar, que tu foste a primeira grande xamã do gênero humano; os males materializados em doenças físicas se dissolviam em tuas mãos de venerável feiticeira, promovendo a cura dos doentes para a alegria exultante dos corações.

         O teu ciclo menstrual é um portentoso símbolo do renascimento constante da criação, onde teu corpo, expulsando dele o sangue e a impureza, se prepara para que futuramente este corpo através do teu sagrado útero possa conceber a vida.  Assim a Mãe-Natureza no inverno guarda dentro do seu seio a semente potencializadora da existência, fazendo-a germinar gloriosamente no verão.

         Não existe outro Graal além de ti, oh, taça de ouro perdida pelo homem, porque este abraçou de forma cega e demoníaca o monoteísmo que rouba e mata sem pudor algum.  

         Em verdade, em verdade, digo-te que tu também és o paraíso perdido, a Lilith sacro-divinal, a sabedoria perfeita personificada na Mãe-Serpente que, levando com suas mãos uma flauta doce aos lábios, conduz,  por meio da sua mágica musica, os filhos e filhas de Gaia e Cernunnos ao palácio luminoso da evolução espiritual definitiva.

         Ave, Anjo-Mulher! Ave,Deusa-Mãe! Evoé, oh, digníssima Qadesh, venha sobre mim, com teu espírito de Sophia, fazer-me mergulhar nas águas das abundantes cachoeiras das tuas maravilhas de iluminante femina.

-ELTON SIPIÃO O ANJO DAS LETRAS


A imagem que ilustra o texto publicado acima, retrata a pintura do artista plástico Jules Joseph Lefebvre –( Tournan –en- Brie, 14 de março de 1836- Paris, 24 de fevereiro de 1911).  O titulo dado à citada pintura que foi feita no ano de 1876 é “Mary Magdalene in the Cave". 

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