quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Carta as filhas de Lilith

      Teu corpo apenas a ti pertence mulher, e apenas a tua vontade deve prevalecer sobre o que se fazer com ele.  Lá vêm os príncipes monoteístas com seus keffiyes revestindo as suas cabeças, eles trazem em suas mãos a bíblia da misoginia, as suas línguas são punhais pontudos e afiados, prontos para dilacerarem o útero de Lilith.

         Olhem para o parapeito da alta janela do prédio pontifício na Praça de São Pedro, o vigário de Cristo diz perdoar as mulheres por conta do pecado de aborto, entretanto, ele é líder supremo da Igreja do cordeiro imaculado que no período das trevas, prendeu, torturou, julgou e matou milhares das filhas de Eva, então, pergunto a ti, oh, mulher, quem tem que perdoar quem?

         Observem os passos do rabino até a sinagoga, eis que somente homens podem entrar lá com ele, o espírito feminino não lhes pode fazer companhia, a mulher é impura demais para ter consigo tal honra; entrar na casa do Deus de Abraão, o patriarcado é desta maneira, não consegue enxergar a existência do feminino sagrado, antes o temem, porque este tem medo que o matriarcado lhe arranque de cima do seu trono de poder e glória.

         O chão está tremendo, o dragão vermelho monoteísta está marchando contra a cidade sagrada de Cerridwen, ele deseja submergir os moradores dela com seu vômito fétido de blasfêmias e impropérios.  Mas, da boca divinal da Grande-Mãe sairá à espada sacro-divina de “Excalibur,” que matará definitivamente esta besta infernal.

        Apenas tu, oh, mulher, decide quem deve entrar ou sair de ti; de dentro da tua pirâmide de delícias invencíveis. Ninguém deverá escolher em teu lugar, as vestes que deves vestir, ou a música que prefiras escutar ou ainda o livro que desejas ler.  Seja como Inanna, Isis, Hera, Lilith e Bastet, comporte-se como senhora única e absoluta do seu próprio querer.

         Quanto a mim devo fugir para a cidade em ruínas esquecida no meio da grande floresta, pois, os príncipes abraâmicos com seus exércitos, estão vindos de encontro ao meu encalço, estes desejam queimar-me na fogueira da sua hedionda inquisição.  

        Lá as benditas sacerdotisas de Avalon me esperam, sob a sua bondosa proteção deverei ficar até que aquela que tem a lua jogada aos seus pés, e possui passos que tem o som de um enorme exército que marcha para a guerra, apareça como um sol refulgente no cimo do céu, pronta para pegar de volta aquilo que é seu, a saber, o seu domínio amoroso sobre os corações de seus filhos, estes que são muito queridos por ela.  

        Eis que a Antiga e Grande Mãe retornará; e eu do meu exílio, serei trazido de volta por suas maternais e amáveis mãos.

- ELTON SIPIÃO O ANJO DAS LETRAS

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