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Um brinde de absinto

quarta-feira, 16 de novembro de 2016.
Um brinde de absinto
Por toda poesia imunda
Sem rima e que fere
A todo aquele que espera
- e busca -
Alguma luz de poemas
Já cansados de amores
Também cansados
Aceito o gole impuro

Da bebida amarga da vida
Oferecido pelas musas
Rameiras, sujas e putas
Que me lançaram no beco
Amaldiçoado da literatura
Maldita do desterro
E assim mesmo, eu as amo
Perdido nelas e nas ruelas

Saúde às máscaras
Sorridentes e alvas
Que escondem o podrido
E o fodido dia a dia do mundo
Iludido, de felicidade torta
Forçada, falsa e enganosa
Que sonham com amores
Para sempre
Porque só para sempre
É a morte

Espalhai minhas páginas!
Ao vento e ao relento!
Queimai meus livros
Que jamais publiquei
E nem publicarei
Porque pertenço à noite
E à noite não se lê
Porque é escura

Bebo toda a taça
De la Fée Vert
E me afogo no próprio vômito
Das palavras negras
De que o mundo é cheio,
E feito, cobertas com todo
O fedor das cores mentirosas
E lodosas em que vos afogais
Rindo
De quê?, Ó Fúrias!, Ó Moiras!

Ao menos eu,
O maldito escritor miserável
Sei do que rio à morte
Sorrio para a vida
Pois ela jamais será
Capaz de me derrotar
Na felicidade cadavérica
Do engodo que é a realidade

 - António Corvo

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